“Liderança autêntica” de Bill George

Que o século XX foi um período de imensas transformações para a humanidade, não se discute. E que a primeira década do século XXI está mostrando que iniciamos uma fase de transformações ainda maiores, também não. E a dimensão desse processo chega ao ponto em que podemos dizer que não estamos vivendo apenas uma era de mudanças, mas uma mudança de era. A fantástica série de acontecimentos recentes não deixa dúvida de que este é um desses períodos da história em que uma onda é substituída por outra, deixando transparecer entre ambas a essência humana, com seus medos, angústias e incertezas expostos. É um ótimo momento para o homem mirar o espelho de sua alma.
 
Quem poderia dizer, no anoitecer do século passado, que a maior potência do mundo seria atacada, que empresas consideradas sólidas decretariam falência, que uma centenária empresa de auditoria fecharia as portas após emitir um atestado fraudulento, que bancos, seguradoras e indústrias automobilísticas seriam socorridos pelo governo mais capitalista do mundo para não fecharem as portas? Quem poderia sonhar com uma nova ordem mundial, em que o grupo dos países mais ricos do mundo tivesse que ampliar seu perímetro para incluir as chamadas “economias emergentes” a fim de impedir a derrocada financeira global? Um viajante interestelar recém-chegado à Terra após uma viagem de dez anos teria dificuldade em acreditar  que havia voltado para casa.
 
É claro que as mudanças desta primeira década não se limitam àquelas aterradoras que ocupam as manchetes dos jornais. Também avançamos na tecnologia, na medicina, nos direitos do cidadão, na preocupação com a sustentabilidade planetária, nos modelos de gestão e nas ideias sobre o comportamento humano. Sim, não podemos deixar de fazer nosso dever de casa. Quando os valores fundamentais e os padrões que norteiam o comportamento das pessoas e das organizações são colocados em cheque, podemos afirmar que as mudanças que se sucederão farão surgir um novo mundo, ancorado em um novo modo de pensar e de agir.
 
Nesse cenário de turbilhão, a discussão sobre a importância dos líderes voltou a ganhar espaço nas universidades, nas escolas de negócios, nas empresas e no cenário político. Afinal, não se conta a história das mudanças sem nomear seus principais protagonistas, os que as provocaram e os que delas emergiram. Faz-se necessário, neste momento, lembrar que o capítulo da liderança pertence à área da psicologia humana.
 
Pela porta que foi aberta por Freud, quando nos explicou a existência do inconsciente, entraram vários estudiosos com seus questionamentos e suas contribuições. Um deles foi o norte-americano Carl Ransom Rogers, que criou uma linha teórica conhecida como Abordagem centrada na pessoa ou, simplesmente, Teoria do Eu. Rogers percebeu, em seu trabalho clínico, que seus pacientes se autorreferiam como se fossem outra pessoa, chamada “eu” – “Sinto que não estou sendo meu verdadeiro eu”, “Preciso encontrar-me”, são desabafos bastante comuns em consultórios de psicoterapia. O que a pessoa está querendo dizer, na verdade, é que ela acredita que sua verdadeira essência é diferente daquela que ela está demonstrando.
 
A abordagem de Carl Rogers parece estranha no começo, pois ele declara que aceita a pessoa que está na sua frente, pedindo ajuda para mudar como ela é. A primeira impressão é que o terapeuta não está entendendo o desejo do paciente em modificar seu interior e aproximar-se de seu verdadeiro eu.
 
Com o tempo, entretanto, fica claro que esse “eu” nada mais é que uma introjeção da imagem dos outros. Assim, quando a pessoa finalmente se aceita como é, abre-se um imenso caminho que leva a dois lugares: ao convívio mais equilibrado e harmônico com os outros e à condição de promover mudanças consistentes, baseadas em suas tendências e seus potenciais, e não em modelos autoimpostos.
 
Engraçado o ser humano: ele só começa a mudar depois que começa a gostar de si como é!
 
Guardadas as proporções, a proposta que Bill George faz neste livro assemelha-se à visão rogeriana de valorizar a autenticidade. Durante décadas, milhares de pesquisas procuraram mapear os perfis dos grandes líderes a fim de criar um modelo a ser seguido. Tal empreitada jamais atingiu o objetivo, pelo simples motivo de que não é possível clonar personalidades nem é aceitável que fatos históricos se repitam com seus incontáveis detalhes e particularidades. A conclusão é que a melhor liderança é aquela adequada à necessidade, exercida pelo líder de maneira autêntica, em que suas competências e seus valores são colocados à disposição do momento.
 
Neste mundo em transformação, é natural que se abra a temporada de busca de um modelo de liderança que mantenha o compromisso com o resultado, mas que ajude a recuperar a essência do humano, que colabore para construir organizações produtivas e responsáveis, que obedeça aos critérios fundamentais da sustentabilidade e que esteja a serviço do bem-estar e da felicidade coletivos.
 
Esta é a grande contribuição desta obra de Bill George, que justapõe três substantivos que, isolados, já são considerados fundamentais para o entendimento das organizações modernas e, juntos, criam uma base de apoio para sua diferenciação e desenvolvimento sustentável: a liderança, a autenticidade e o valor. Há pessoas que têm experiência e pessoas que são capazes de chegar a conclusões a partir de análises detalhadas. E há aquelas como Bill George, que acumulam as duas qualidades.  Executivo testado na prática e pensador respeitado em uma das melhores escolas de negócios do mundo – a Harvard Business School -, ele chegou ao modelo do líder autêntico pela via mais segura, aquela que transitam de mãos dadas a teoria e a prática, personagens tão comumente distanciados pelas idiossincrasias da academia e da empresa.
 
Propósitos elevados, valores claros e praticados, relações humanas éticas e duradouras, engajamento do coração e autodisciplina a serviço de tudo isso são as cinco dimensões que compõem o líder autêntico.  Não há como discordar desse conjunto, pois ele condensa o pensar, o sentir e o fazer humanos, e o autor chega a essa seleção com simplicidade, lógica e alguns toques de poesia.
 
Há livros que expõem teorias e livros que propõem novas visões.
 
O encanto de Liderança autêntica é que ele nos leva a uma reflexão inédita pela análise do conhecimento consistente. Ao lê-lo tive, várias vezes, a sensação agradável de compreender a complexidade do exercício da liderança ao perceber que as peças se encaixam naturalmente. A liderança autêntica transita com naturalidade pelo campo do existencialismo, que busca chegar à existência autêntica, expressão que encerra a ideia da evolução e da felicidade.
 
Bill George pergunta, ao concluir suas reflexões, o que temos ao final de um dia de trabalho. E propõe que encontremos alegria, satisfação e amor, pois esses sentimentos são os que definem um ser humano autêntico, que não se separa em partes, esquartejando sua essência. E assim chegamos ao líder autêntico, aquele para quem liderar pessoas normais em direção a resultados extraordinários é algo tão natural quanto a própria condição de ser humano.

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