Preguiça de ocasião

Qualquer um será preguiçoso se estiver no lugar errado. A menos que você encontre um valor para o seu trabalho.
 
O ex-professor de Harvard Mark Albion publicou no livro “Making a Life, Making a Living” (comentado na Você S/A No. 50 de agosto 2002) uma pesquisa sobre a relação entre a satisfação no trabalho e o resultado que se alcança através do mesmo. Duas coisas ficam claras: a relação direta entre a satisfação e o sucesso, e também entre a aptidão e a satisfação. Ou seja, uma pessoa realiza melhor o trabalho que lhe dá prazer, e como conseqüência tem mais chance de permanecer nesse trabalho por mais tempo, alcançar mais sucesso e ganhar mais dinheiro. Também fica esclarecido que uma pessoa encontra mais satisfação em realizar um trabalho para o qual ela tenha aptidão.
 
Ou seja, mais aptidão, mais satisfação, mais sucesso. Exatamente nessa ordem. Então vamos começar do começo. Afinal, o que é aptidão? Por definição, sabemos que “aptidão é uma disposição inata para a prática de determinada atividade”, mas que também pode ser “uma habilidade ou capacidade resultante de conhecimentos adquiridos”. Em outras palavras, uma pessoa pode nascer com aptidão para uma determinada atividade, como, por exemplo, lidar com pessoas ou administrar processos, mas também pode desenvolver a aptidão para esses trabalhos a partir da educação e dos treinamentos que recebe ao longo de sua vida.
 
A pergunta mais freqüente que recebo a respeito desse assunto é: o que uma pessoa deve fazer quando não encontra satisfação em seu trabalho? Será que ela deve abandoná-lo, buscando outro do qual ele consiga extrair prazer, em respeito à sua aptidão? Ou deve conformar-se, em função da dificuldade de conseguir outro emprego, nesse mercado competitivo e recessivo que aí está?
 
A melhor resposta é que não existem apenas essas duas alternativas, do tudo ou nada. A pior alternativa é, sem dúvida a de conformar-se com a situação. Mas antes de chutar o balde, é recomendável fazer um exercício de aumento de percepção a respeito do trabalho, explorando todas suas facetas, como por exemplo a importância e o valor do mesmo. Quando a pessoa percebe o valor do trabalho, começa a gostar mais dele, pois sente-se, ele mesmo, valorizado. É o primeiro passo para o investimento no aumento da aptidão, que continua através da capacitação e da adequação.
 
É bastante conhecida aquela metáfora do rei que foi visitar as obras de uma catedral. Ao perguntar a um operário o que ele fazia, recebeu como resposta – “o senhor não vê? Estou carregando pedras”. Já o segundo operário, que fazia exatamente o mesmo trabalho, respondeu: “o senhor não vê? Estou construindo uma catedral”. É óbvio que há entre os dois uma diferença de percepção da importância e do valor de seu trabalho. O segundo operário com certeza é mais competente e muito mais feliz.
 
Em 1928 o escritor paulista Mário de Andrade lança o livro Macunaíma, e traça um “perfil do brasileiro” na pele do personagem-título. Define uma qualidade da qual alguns brasileiros gostam até de orgulhar: a preguiça. O livro é uma combinação de romance com história, mitologia, folclore e epopéia e descreve um “herói sem caráter”, que gosta de nada fazer, e que tem como frase predileta “… ai, que preguiça…”
 
Mas será que pessoas preguiçosas existem mesmo, ou existem apenas momentos de preguiça, a que todos estamos sujeitos, humanos que somos? Podemos classificar uma pessoa de preguiçosa, quando ela não apresenta a performance desejada ou não alcança os resultados esperados? Afinal, o que é um preguiçoso?
 
O escritor russo Alexander Berkman, anarquista de carteirinha, definiu lá no começo do século passado, o que seria uma pessoa qualificada de preguiçosa. Disse ele: “um homem preguiçoso é quase sempre um tarugo quadrado num buraco redondo…”
 
Quis dizer com isso, que qualquer pessoa terá um comportamento qualificado de preguiçoso, quando estiver no lugar errado (tarugo quadrado no buraco redondo). E não é que ele tinha razão? Qualquer um, quando solicitado a realizar um trabalho para o qual não apresenta nenhuma aptidão, não conseguirá colocar sua alma na tarefa. Sendo assim, adeus performance e adeus resultados adequados. Olha aí o preguiçoso surgindo…
 
Então parece que a preguiça, entendida como a falta de vontade para a execução de um trabalho, resulta da inadequação, o que é conseqüência da falta de aptidão da pessoa àquela tarefa. E voltam as três alternativas: mudar de emprego, conformar-se com seu destino ou melhorar sua percepção, gerando adequação. Deu preguiça? Pois é, mas é o mundo em que estamos vivendo…
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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