Qual é o seu limite? (Neco Padaratz)

Quem já experimentou a emoção de surfar, de cavalgar uma onda equilibrando-se em cima de uma prancha de poliuretano, que mede entre seis e sete pés (entre 1,85 m e 2,13 m), sabe que poucas sensações podem ser mais espetaculares, e mais difíceis de traduzir com palavras. Os mais fanáticos chegam a exagerar: “entre sexo e surfe, fico com o surfe”.
 
O imenso prazer retirado do surfe é proporcional à dificuldade em praticá-lo. Remar montado na prancha, esperar na área adequada, escolher a onda certa, entrar nela no momento preciso, alinhar o eixo, ficar de pé, equilibrar-se, para finalmente “surfar”. Isso sem contar o preparo físico, a resistência ao frio, ao vento, ao sol, às águas vivas, aos recifes, à hostilidade de grupos nativos, etc. Cansou? Quem sabe um frescobol…
 
O surfe é tido como um esporte para gente corajosa. Rapazes e moças, jovens ou nem tanto, mas sempre corajosos. Por isso uma atitude de não coragem, nesse meio, é visto com desconfiança. Há até um vocabulário próprio: “amarelar” e “puxar o bico”. No entanto essas duas expressões têm significados diferentes.
 
“Amarelar” significa desistir de enfrentar uma situação perigosa ou difícil, por medo. “Puxar o bico” tem o significado de não enfrentar uma situação por não considerá-la apropriada, e não por medo. Imagine a cena. Você entra em uma onda, com a melhor das intenções, quando percebe que algo está errado. Alguém entrou na frente, ou você não está bem posicionado, ou está muito perto dos recifes, ou outra situação qualquer que sinaliza que não é prudente pegar essa onda. O que você faz? Desvia o eixo da prancha retirando-a da onda, “puxa o bico” e cai fora, esperando onda melhor. Nada mais lógico. Você não amarelou, apenas puxou o bico.
 
Foi o que fez o Neco Padaratz, o surfista catarinense que está entre os melhores do mundo, ao anunciar que não iria participar da terceira etapa do Mundial de Surfe, o World Championship Tour (WTC), em Teahupoo, no Taiti. Neco puxou o bico de Teahupoo, mas acabou pegando a melhor onda de sua vida: a da percepção de suas potencialidades e de seus limites, dando uma espetacular lição de grandeza, pois teve a humildade de reconhecer que não está preparado para essa etapa – lembremos que a humildade é uma qualidade dos grandes.
 
Em carta aberta o catarinense reconheceu: “Todo ser humano tem seu limite, e hoje, meu limite é Teahupoo”. Nenhuma onda do mundo mete medo em Neco, nem as de Teahupoo. Ele apenas reconhece seu perigo que, em 2000 quase tirou sua vida, quando no meio de uma disputa, foi literalmente sugado pela onda e arremessado ao encontro dos corais que o mantiveram preso, tendo sido resgatado nos últimos instantes. Ele de fato entende de limites; esteve naquele que separa a vida da morte.
 
Coragem não é o oposto do medo; o oposto do medo é o “não medo”, e cumpre função contrária a ele. O medo é uma condição tão óbvia que carece de exploração, mas sempre é bom lembrar que se trata de uma necessidade da própria biologia, ligada à manutenção da vida. O medo impede a exposição do indivíduo – animal ou humano, ao perigo superior à sua condição de enfrentá-lo. Nesse sentido, o não medo é danoso à vida, é contrário à existência, é irresponsável para com a própria Natureza. Não ter medo significa não ter apego à própria condição de ser vivo, podendo, nesse sentido, ser interpretado como uma patologia. Não é bom não ter medo, é uma espécie de doença.
 
Já a coragem é um estado de superação, baseado na lucidez, na percepção das próprias capacidades e limites, no autoconhecimento. A coragem transita entre o medo e o não medo. Supera o primeiro, mas ri-se do segundo. O corajoso não é um imprudente. Ele tem medo, mas vence, não por bravata, mas por preparar-se para enfrentar as dificuldades denunciadas pelo medo.
 
Voltando ao mar, todos conhecemos a história de Moby Dick, a colossal baleia, o monstro dos mares. Trata-se de um livro do escritor americano Herman Melville que, antes de ser escritor foi marinheiro, portanto escrevia com propriedade sobre as coisas do mar. A história é relatada pelo jovem Ismael, que foi o único sobrevivente da viagem que tinha por finalidade caçar Moby Dick, o que era a obsessão do comandante Acab, capitão do navio baleeiro Pequod.
 
Pois bem, o capitão Acab, esse corajoso lobo-do-mar, dono de um currículo que incluía inclusive encontros anteriores com a tal baleia, ao dirigir-se à tripulação, disse: – “Não quero no meu barco nenhum homem que não tenha medo de baleia”.
 
Dizem os estudiosos da obra de Melville que a simbologia da aventura mostra o encontro do homem com seu próprio destino, que no final é a morte. Moby Dick é apresentado como uma encarnação dos medos que todos temos, e o Pequod, os meios que desenvolvemos para enfrentá-los. A filosofia do capitão, que queria homens corajosos, mas não sem medo, é o melhor testemunho da importância do autoconhecimento, que nos permite avaliar nossos limites e nossos alcances. A vitória da baleia não é a vitória da imprudência, e sim um alerta ao valor da cautela.
 
A vida da maioria de nós, mortais comuns, que trabalhamos em escritórios, empresas, consultórios, parece, numa primeira análise, que pouco tem a ver com as fantásticas histórias que vimos até aqui, mas isso não é verdade. Independente do que você faça, tem lá seu Teahupoo e seu Moby Dick. E você faz muito bem em ter medo deles, o que não significa que você esteja acovardado. Se você não tiver medo, está com problemas, se não tiver coragem, também.
 
O dia a dia do cidadão que pega trânsito, que faz negócios, que participa de reuniões, que fala em público, que faz entrevista de emprego, que enfrenta chefe nervoso, é, sim, cheio de pequenos “perigos”, que têm ainda a qualidade da superposição e da acumulação. Atualmente, sobrevivência é sinônimo de superação. Precisamos estar em permanente processo de melhoria, pois caso contrário somos facilmente ultrapassados pela concorrência. Às vezes temos a sensação que precisamos ser “super-homens” e super-mulheres”.
 
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche publicou, em 1892, o livro Assim Falava Zaratustra, em que ele reeditava as idéias de Zaratustra, também chamado Zoroastro, um profeta persa do século VI a.C., que teria escrito sobre a necessidade do surgimento de um “super-homem” para enfrentar as dificuldades crescentes do mundo. A idéia de Zaratustra, no entanto, como explica Nietzsche, não tem nada a ver com um homem de músculos de aço.
 
Ele utilizou uma metáfora para que as pessoas comuns chegassem à conclusão de que todos nós somos “super-homens” em potencial. Isso, no entanto, não tem nada a ver com esculpir músculos ou tomar alguma espécie de elixir da inteligência. Nós nos tornamos “super”, quando vencemos nossos inimigos internos, que são os piores, e quando aprendemos a conhecer nossos medos, modificar nossos hábitos incorretos e fazer o que precisa ser feito sem deixar para depois. As principais características do Super Homem de Zaratustra não são a visão de raios X ou a capacidade de voar, mas a vontade e a coragem.
 
E a coragem não elimina o medo, mas cria com ele uma dualidade, e esta pode ser chamada de maturidade. Essa foi a onda que Neco Padaratz surfou. A onda da maturidade, a melhor de todas, pois é a que nos dá a verdadeira sensação de liberdade. Neco não precisa provar mais nada para ninguém. Para ele a maturidade chegou aos vinte e sete anos. E a sua, amigo leitor, como anda?
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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