Quando um não quer, dois não brigam

Só entra numa disputa quem quer. Não jogue a culpa no outro: a decisão está em suas mãos
 

Um empresário, daqueles altamente competitivos, que se orgulha de ser agressivo nos negócios e adora uma boa disputa comercial, um novo desafio e investimentos arriscados, um dia tem um grave problema de saúde. Após tratar-se, e preocupado com o futuro, procura um guru de quem ouvira falar, conhecido por sua incrível vitalidade apesar da idade avançada. Desejava aprender o segredo da longevidade com lucidez e saúde.– O segredo – ensinou o guru – é nunca brigar. Quando brigamos, consumimos a energia que vem de nós e, portanto, estamos consumindo a nós mesmos. Não devemos direcionar energia para outra coisa que não para o amor e para a harmonia.
 
– Mas, mestre – retrucou o executivo, elevando a voz –, foi brigando que consegui tudo que tenho, minha fortuna, minhas propriedades, minhas empresas. Devemos discutir, brigar por nossas convicções, impor nossas verdades, ocupar mais espaço onde vivemos e trabalhamos. Não posso concordar que não discutir e não brigar seja a melhor alternativa para uma vida melhor.
 
– Esse é um ponto de vista – acrescentou o sábio, finalizando a discussão que estava para começar. O guru não brigava, mas sabia argumentar. Entretanto preferiu não fazê-lo com o executivo em questão porque percebeu que com este acontecia o contrário: ele não sabia argumentar, somente brigar – e isso o guru sabia que faria mal e não levaria a lugar nenhum.
 
O poder do argumento
 
O diálogo acima estimula nossa reflexão a respeito de uma questão tão pertinente quanto cotidiana: diante de uma contrariedade, vale a pena gastar energia brigando ou podemos resolver tudo utilizando a lógica e a razão na busca da solução mais adequada, em que todas as partes envolvidas sejam, de alguma forma, vencedoras?
 
Essa é uma questão polêmica. Afinal, por que o ser humano com freqüência tem comportamento agressivo e hostil, se está provado que através de atitudes pacíficas e amorosas ele consegue conviver melhor com seus semelhantes e consigo mesmo? O assunto não é novo. Pertence ao homem desde que ele desceu das árvores, passou a andar com duas pernas e começou a competir por comida e espaço ao mesmo tempo em que sentia necessidade de construir comunidades. Tinha, portanto, de ser agressivo e pacífico, dependendo da situação.
 
O tempo passou e a necessidade da violência como meio de garantir a subsistência ficou cada vez menor. Mas o instinto permaneceu, pois ele foi criado ao longo de milhões de anos, enquanto a civilização tem apenas alguns milhares. Então começa a disputa interna entre a agressividade natural e a amorosidade, também natural.
 
Como sempre foi, há um momento para o predomínio de cada um desses instintos, porém a diferença é que a sobrevivência física, após a civilização ser criada, depende mais da capacidade de conviver do que da capacidade de competir agressivamente. Eis o que muita gente ainda não percebeu, motivo pelo qual ainda se briga no trânsito, no trabalho, em casa.
 
A verdade é que aquele homem de negócios jamais poderá simplesmente deixar de ser combativo. Mas o que ele poderia, se quisesse, seria adaptar seu estilo profissional, que já é parte de sua personalidade, a uma conduta de competitividade sem agressividade.
 
Discutir, no sentido de expor suas verdades, seus pontos de vista, seus interesses, é válido, pois nada mais é do que o exercício legítimo da autonomia. Já partir para a agressividade, seja verbal ou física, esquecendo os princípios do respeito pela diferença e pela individualidade do outro, estaciona o indivíduo no terreno da ignorância.
 
Quando olhamos para o homem como um ser racional, dotado de linguagem, capaz de exercer a justiça e o bom senso, concluímos que qualquer conflito pode ser evitado, sendo substituído pelo diálogo que leva ao entendimento. É sabido que espíritos desarmados sempre chegam a melhores resultados. O problema é que, como certa vez disse o filósofo Sêneca, “o homem é um animal racional, mas não é, necessariamente, um animal razoável”.
 
Mas há uma boa notícia a respeito desse tema: todos somos racionais e, para evitar uma guerra, basta que a metade de nós seja razoável. Considerando que uma briga só vai acontecer se ambos os lados estiverem dispostos a brigar, basta que um não esteja para que a mesma não aconteça. Ponto para o razoável. Em outras palavras, quando um não quer, dois não brigam, pois o briguento simplesmente não tem com quem brigar.
 
Homem bom e mau
 
O garoto Thomas veio ao mundo prematuramente porque sua mãe entrou em pânico ao saber que a armada espanhola se aproximava da Inglaterra e precipitou o trabalho de parto. Muito tempo depois, o adulto Thomas Hobbes disse: “Eu e o medo nascemos gêmeos”. Com certeza ele estava fazendo uma piada, mas o filósofo e cientista político inglês Hobbes interessara-se pelo tema e em seu livro mais famoso, chamado Leviatã, publicado em 1650, descreve um ser humano que, por natureza, é mau, sendo controlado por meio do medo pela sociedade em que está inserido. Em linguagem bíblica, o leviatã é uma besta marinha, algo parecida com uma baleia, porém feroz e mortal. Era assim que o filósofo inglês via a sociedade, capaz de engolir seus próprios integrantes, que nada mais seriam que seres brutos, interessados apenas em si mesmos, sem sentimento humanitário, sem solidariedade. Sem dúvida uma visão dura da condição humana.
 
Para controlar essa natureza bestial do homem, a única alternativa, de acordo com Hobbes, seria a existência de uma autoridade superior, um monarca ou ditador, capaz de impor a paz e a ordem pela força, e não por apelos humanistas. A necessidade desse monarca é reconhecida pelos próprios homens, que permitem que ele exista.
 
Hobbes foi o criador das célebres expressões: “homo homini lupus” (o homem é o lobo do homem) e “bellum omnium contra omnes” (a guerra de todos contra todos). Em seu estado natural, o ser humano lutaria implacavelmente pela sobrevivência às expensas dos outros. Já em sociedades, mantidas por autoridades, leis, punições, o ser humano aceita a paz por meio de um acordo comum, chamado contrato social.
 
O também filósofo Jean-Jacques Rousseau, do outro lado do canal da Mancha, desenvolveu uma teoria oposta: o homem por natureza nasce bom, mas é corrompido pela sociedade. A partir desse raciocínio, criou o conceito do “bom selvagem”, o homem primitivo, simplório, não atingido pelas ambições sociais, como o poder e o consumismo.
 
Hobbes acredita que o ser humano precisa da sociedade para controlá-lo, pois é mau por nascença. Já Rousseau pensa que a sociedade é que estraga o homem, que, em sua origem, é bom.
 
E como ficamos nós, mortais comuns, se dois grandes pensadores, que influenciaram o Iluminismo, o movimento que deu origem às grandes transformações do mundo moderno, têm opiniões tão diferentes a respeito das qualidades inatas do ser humano? Afinal o ser humano, em sua origem, é um bom selvagem ou um lobo sempre pronto para matar outro lobo e usá-lo como alimento ou como troféu?
 
Criaturas interiores
 
Então vejamos: ao longo de milhares de anos nossos ancestrais desenvolveram habilidade e inteligência criando armas para atacar e caçar.
 
A serviço da sobrevivência, trataram de aumentar sua agressividade. Um neandertal pode ter nascido bom, mas teve de matar para sobreviver.
 
A vida o teria corrompido – ponto para Rousseau! Mas, na verdade, há um empate aqui. A psicanálise, apesar das controvérsias, se debruçou centenas de anos depois sobre o assunto e chegou a algumas conclusões.
 
No século passado, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, escreveu em O Mal-Estar da Civilização que os seres humanos são criaturas boas e gentis, mas que também são maus e agressivos dependendo da vantagem ou do prazer que cada uma dessas duas características lhes confere. Somos dotados de pulsões, estímulos naturais da psique, que desencadeiam a resposta que damos ao mundo, procurando alívio para as pressões a que estamos sujeitos em nosso cotidiano. E as pulsões tanto podem ser mansas como agressivas.
 
Como duas criaturas independentes, vivem dentro de nós tanto o bom selvagem quanto o lobo que mata outro lobo. A questão é aprender a colocar esses dois sujeitos em seus devidos lugares, permitindo que cada um aja a seu modo, mas – e isso é o que realmente importa – obedecendo essencialmente a um único senhor: a consciência humana.
 
Essa conclusão fez lembrar o escritor russo Leon Tolstói, autor de Guerra e Paz: “Só há uma maneira de acabar com o mal: é responder-lhe com o bem”. Se tivermos amor e soubermos usá-lo nas diferentes situações que vivemos, certamente amenizaremos o mal-estar da civilização, ainda que não possamos acabar com os conflitos.
 
Lidar com parcimônia com seus semelhantes e ser capaz de não reagir de forma agressiva são sinais de maturidade e de inteligência emocional desenvolvida. Quando estiver irritado, conte até dez, mas, se estiver extremamente irritado, conte até 100. Todos ganham com esse exercício de contar, mas quem mais ganha é aquele que conta.
 
Quase sempre, a melhor maneira de ganhar uma discussão é evitá-la, mas sempre buscando a tolerância baseada na compreensão da individualidade humana. É inteligente reagir de forma positiva nessa questão, pois, como disse o líder pacifista Gandhi, “se continuarmos a acreditar na idéia do ‘olho por olho’, o mundo acabará ficando cego”.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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