Quem canta seus males espanta

É claro que as primeiras manifestações musicais não deixaram vestígios sonoros, por isso não podemos saber exatamente quando nasceu a música ou mesmo quando o ser humano começou a usar sua voz para produzir melodia. Entretanto, há registros rupestres de que o homem das cavernas já produzia alguma música que, quando associada à dança,servia para reverenciar os deuses, ganhando assim um sentido religioso.
 
As vitórias na guerra, o bom resultado na caça, as descobertas e os nascimentos eram celebrados com as mãos e os pés batendo ritmadamente, criando algo parecido com música, capaz de agradar aos deuses, a quem se devia agradecer para garantir a continuidade das benesses. Com o tempo surgiram madeiras trabalhadas sobre as quais se batia para obter o ritmo, dando origem aos instrumentos musicais, ao mesmo tempo que surgiam locais ritualísticos – os primeiros templos. Desde o começo, o som esteve ligado a um resultado já obtido, e nesse caso seria para agradecer, ou a um resultado desejado, quando então a música ajudava a alcançar algo. Portanto, parece que a música acompanhou a evolução do ser humano em função de suas necessidades e desejos.
 
Mas, indiscutivelmente, foram os gregos que criaram as bases da cultura musical no Ocidente. A começar pela própria palavra “música”, que deriva de mousiké, que significa “a arte das musas”, que eram as nove deusas responsáveis por inspirar a criatividade dos homens. Quando cantava, um grego estava estabelecendo uma comunicação com o divino, tornando-se, ele mesmo, um semideus. Assim sendo, seu canto servia para alcançar as coisas desejadas e também para afastar o indesejado. Daí dizermos que quem canta seus males espanta.
 
Como os passarinhos
 
Certa vez, conversando com um amigo que tem como passatempo observar pássaros livres na natureza, perguntei: “Você gosta de olhar os passarinhos cantando de felizes?” Meu amigo respondeu: “Não, eu gosto de observar os passarinhos felizes por estarem cantando”. Essa inversão na frase resume uma questão filosófica de razoável complexidade. Afinal, o passarinho canta porque é feliz ou é feliz porque canta? Meu amigo, que é o especialista, garante que a segunda frase é a verdadeira.
 
É claro que se trata de uma metáfora, cujo objetivo é alertar para a relação entre a atitude e o estado de espírito. O passarinho nem sequer conhece o conceito de felicidade – cantar é seu instinto ligado ao acasalamento, ao reconhecimento do grupo e à sobrevivência, é o que dizem os biólogos. Mas, como nem só de ciência vivemos, apelamos à poesia. Por isso preferimos acreditar na relação entre a maravilha do canto e o caráter livre, leve e feliz do passarinho. A nós, pesados bípedes presos à terra, só nos resta apreciar e almejar sua beleza e, às vezes, tentar imitar seu som ou, como fazem alguns mais invejosos, prender o passarinho em uma gaiola para manter seu canto próximo, criando o paradoxo de apreciar o símbolo da liberdade colocando-o em uma jaula.
 
Observada mais de perto, a metáfora do passarinho é muito forte e muito válida, pois nos ajuda a perceber que há uma íntima relação entre o que fazemos e o que sentimos. Quando afirmamos que quem canta seus males espanta, tanto podemos estar falando do canto em si, que sem dúvida pode mudar tudo, como podemos estar nos referindo à atitude, da qual derivam todas as mudanças. O que interessa é o resultado prático. A esse propósito, disse Thoreau: “Ser filósofo não é meramente ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola. É resolver alguns problemas da vida, não na teoria, mas na prática”. Portanto, trata-se de uma idéia filosófica essa de imitar o passarinho e fazer algo feliz para então ser feliz.
 
Dando sentido à vida
 
“Eu sempre ouvi dizer que quem canta seus males espanta”, afirmou Dom Quixote com sua convicção habitual, o que significa que essa frase sobrevive há pelo menos quatro séculos.
 
O livro Dom Quixote de la Mancha, escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes, acaba de completar 400 anos e foi recentemente escolhido por uma comissão de críticos literários como a melhor obra de ficção de todos os tempos. Qual a explicação para o sucesso universal dessa obra que conta a vida de um homem considerado louco?
 
Provavelmente é porque ela aborda, como nenhuma outra, a eterna luta entre o sonho e a realidade, um fenômeno essencialmente humano do qual nenhum de nós está afastado. Dom Quixote, o cavaleiro da triste figura, como ele mesmo se chamava, resolve abandonar sua vida sem sentido e sair em viagem, acompanhado pelo escudeiro improvisado Sancho Pança. Seu objetivo é fazer justiça no mundo, proteger os fracos e oprimidos e salvar donzelas em perigo – buscando dar sentido à sua vida. É a síntese do herói que vive em cada pessoa, mas que, muitas vezes, quando se manifesta, provoca nos outros a mesma reação que Quixote provocava– a de que ele havia perdido contato com a realidade.
 
Mas Dom Quixote não se importava com a opinião dos outros porque estava seguro de seus propósitos e seguia em frente mesmo após críticas ou fracassos. É a síntese de um homem de atitude. Quando usamos a famosa frase, tanto podemos estar nos referindo ao próprio ato de cantar, que sem dúvida alegra e estimula, como à atitude positiva, cheia de energia e objetiva, que falta a muitos – e que sobrava no peito do cavaleiro espanhol.
 
Dom Quixote poderia continuar vivendo em paz em sua fazendola na província de La Mancha, mas, contando já com mais de 50 anos, optou por uma vida inconformada, cheia de aventuras e perigos, e foi justamente isso que o transformou em um personagem eterno.
 
Algumas pessoas agem como Dom Quixote, outras como Vladimir e Estragon, que conversam sobre sua falta de sorte e sobre a injustiça que sofrem enquanto esperam Godot, que lhes trará a redenção. Eles ganharam vida a partir da mente fértil e crítica de Samuel Beckett, para representar os que se contentam em esperar, ainda que para sempre, que a solução para seus problemas venha pronta, sem exigir esforço.
 
Uma questão de atitude
 
De fato, há as pessoas de atitude, as que fazem a diferença, e aquelas que apenas esperam que as coisas aconteçam e, por isso, têm grande chance de experimentar a frustração. Pensamentos de dois respeitados estudiosos do comportamento humano podem nos ajudar a compreender essas diferenças.
 
O primeiro é o psicólogo alemão Kurt Lewin, que criou um conceito a que chamou de “Teoria de Campo”. Essa teoria se refere à existência de forças internas e externas, positivas e negativas, que interagem e definem a conduta do indivíduo. Algumas pessoas agem como se estivessem sujeitas principalmente às forças negativas, que as seguram, impedem seu movimento, como um automóvel que não sai da primeira marcha. Já outras são influenciadas por forças propulsoras, algumas criadas por elas mesmas, outras aproveitadas do meio circundante. Isso vale para uma pessoa, um grupo e mesmo para uma organização, como uma empresa ou um exército. A diferença estará na percepção das forças e na disposição para utilizá-las.
 
O segundo é o administrador hindu Ran Charan, que migrou para os Estados Unidos, onde se tornou professor da Universidade de Harvard e é conselheiro de dezenas de presidentes das maiores empresas americanas. Suas idéias de gestão unem o pragmatismo americano à sabedoria oriental. Um de seus livros mais influentes tem o título de Execução – A Disciplina para Atingir Resultados (Campus). Nele, ensina: “O elo perdido entre o plano e o resultado é a execução, a atitude”.
 
Falando em atitudes, cantar é um exemplo de atitude impulsionada por forças positivas, capazes de promover mudanças internas e, como conseqüência, externas. O cérebro humano funciona porque tem neurônios e porque estes estão conectados através das sinapses. Estas, por sua vez, dependem de hormônios próprios para serem ativadas – os neurotransmissores. Entre eles encontramos as endorfinas, bastante conhecidas por aqueles que gostam de esporte, pois são analgésicos naturais produzidos quando o corpo está em intensa atividade física. A finalidade é proteger o corpo da dor provocada pelas possíveis lesões do esporte ou da batalha.
 
As endorfinas têm efeitos sobre nosso corpo, mas também atuam sobre nossa condição emocional. É um poderoso antidepressivo e estimulante. Que tipo de estímulo? Aqui vem a melhor parte: sob efeito de doses altas de endorfinas, experimentamos a elevação de quatro ótimos estados mentais: bem-estar, autoconfiança, otimismo e serenidade. Não é assim que gostaríamos de nos sentir sempre? Pois bem, quando cantamos produzimos endorfinas. E quando tomamos atitudes firmes, confiantes, otimistas, também.
 
O compositor Walter Franco, na música “Coração Tranqüilo”, afirma: “Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”. É isso o que acontece quando estufamos o peito, abrimos a boca e soltamos o Pavarotti que habita em nós ou quando liberamos a alma, agimos com o coração e produzimos coisas boas e belas. Espantar os males é uma questão de tomar a atitude certa que, assim como cantar, é só ter a coragem de começar.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.


Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br