Quem sai na chuva é para se molhar

Toda escolha que fazemos tem conseqüências, que podem se transformar em aprendizado e experiência
 
Lembro-me do meu primeiro baile. Em minha adolescência, passada em Curitiba na década de 60, o baile era um acontecimento da maior importância. Os clubes tinham seu calendário próprio, e havia bailes de todo tipo. Havia os “de gala”, como os de formatura ou de debutantes. Os “de terno”, que comemoravam alguma data oficial e tinham show com um cantor ou banda famosos. E ainda tinha os bailes “esporte”, mais descontraídos, em que o rock dos anos 60 rolava solto, saído dos discos de vinil.
 
Meu primeiro baile importante foi um “de terno”. Lá estava eu, magro e espinhento, mas cheio de autoconfiança, afinal aquela roupa me caía bem, pelo menos era o que eu achava. Encontrei os amigos, todos tentando mostrar naturalidade, rindo alto, tomando guaraná com gelo, fingindo que era uísque. Tudo corria bem, afinal estávamos todos na mesma situação. Até que não deu mais para ignorar a principal responsabilidade da noite: tirar uma menina para dançar. Pois é… eu tinha saído na chuva, e não tinha como não me molhar. Encarei o desafio, mas confesso que não foi brincadeira. Mas esse “banho”, acredite, que no começo gelou a espinha, acabou aquecendo a alma.
 
Depois disso, e por toda a vida, houve tantos outros “banhos de chuva” que eu não poderia me lembrar de todos. Estou falando através da metáfora, mas isso nos ajuda a lembrar que em todas as áreas da vida, em situações diversas, algumas mais leves, outras muito pesadas, todos temos que decidir inúmeras vezes se preferimos assumir a responsabilidade e os riscos do novo desconhecido ou a segurança do velho conhecido.
 
Só uma coisa é certa: se você sair na chuva, vai ter que se molhar. O que faz a diferença não está no tamanho do banho que você toma, mas no que você faz com ele depois. Aproveita para também lavar a alma e crescer com a experiência, ou se recolhe a um canto protegido, tremendo de frio e medo?
 
As escolhas
 
Viver é fazer escolhas, e eu aposto que você já fez muitas delas hoje. Teve que decidir se chegava pontualmente ao trabalho ou se ficava mais cinco minutinhos na cama. Teve que escolher o que comer, a cor das meias, ônibus ou metrô, sobremesa ou dieta… Aliás, ler este artigo já é uma escolha, afinal você poderia estar fazendo um milhão de outras coisas.
 
Desde crianças, optar pelo que nos parece ser melhor é algo rotineiro, mas nunca deixa de ser traumático. E, junto com as decisões, vêm as conseqüências, as implicações, as chuvas e tempestades do caminho. Convenhamos: é comum nesses momentos bater uma vontade de desistir, de voltar atrás, de se encolher no canto.
 
Sabemos que a ansiedade deriva especialmente da necessidade de escolher. Até uma sorveteria é um gerador de ansiedade, pois nos oferece pelo menos 40 sabores, todos atrativos, e nós só podemos escolher dois. Não é uma injustiça? A ansiedade só desaparece depois que escolhemos, saboreamos e nos satisfazemos.
 
As escolhas e suas conseqüências sempre incomodaram o ser humano. Até os filósofos se ocuparam do tema. Para Jean-Paul Sartre, por exemplo, o ser humano é completamente livre para exercer o poder da escolha, e é justamente isso que o diferencia e o dignifica. Está ao nosso alcance eleger o objetivo a ser seguido, a melhor maneira de lidar com certo tipo de situação e o modo ideal de contornar os obstáculos. Podemos até decidir não agir, não fazer absolutamente nada, o que também não deixa de ser uma escolha.
 
Sartre diz que a única ação que o ser humano é incapaz de praticar é a renúncia da escolha. Simplesmente não podemos não escolher. E o melhor: ao determos o poder da escolha, estamos condenados à liberdade.
 
Entretanto, esse poder de escolha, que representa a liberdade, faz surgir à nossa frente uma encruzilhada: se por um lado podemos usufruir desse poder, controlando as rédeas da nossa própria vida, por outro somos prisioneiros dessa mesma tarefa, pois decidir muitas vezes não é fácil, e ainda temos que assumir a responsabilidade pelas conseqüências da decisão. Essa idéia, que em geral não percebemos, mas que é bem real e cotidiana, passou para a história com o nome de “paradoxo de Sartre”.
 
Decidir é o sinal da liberdade, mas é uma liberdade que exige disposição para duas coisas: assumir responsabilidade – e algumas pessoas se sentem aprisionadas por ela – e exercitar a renúncia, pois quando escolhemos um caminho ao mesmo tempo abrimos mão de muitos outros.
 
As conseqüências
 
Se pensarmos bem, aquilo que determina a nossa relação com o tal poder da escolha é nada mais que o impulso irrefreável e totalmente humano que nos leva a realizar coisas, sair do lugar, mudar o mundo. Entretanto, vivemos a dualidade construída, por um lado, pela atração irresistível da novidade e, por outro, pelo apreço que temos pelo conforto e segurança que o mundo conhecido nos oferece.
 
Vejamos um exemplo: todo mundo que já teve 17 anos conhece a alegria de concluir o colégio, mas também o peso que representa a primeira grande escolha de sua vida: a profissão que irá seguir. Obviamente não é uma decisão simples, e até certo ponto é injusta com alguém tão jovem. Trata-se de uma das distorções de nosso modelo educacional, que faz surgir duas legiões: a dos que acertaram na decisão por terem amadurecido a tempo e a dos que amargam o peso da escolha incorreta. Nesse caso abrem-se mais dois caminhos: o da aceitação que acomoda ou o da guinada que angustia.
 
Pessoas que vivem esse segundo tipo de situação não raro negam seu poder de escolha. Preferem se ver como vitimas e não como responsáveis por sua própria felicidade. É mais fácil pôr a culpa das nossas escolhas fracassadas em uma infância infeliz ou na pressão da família. Mesmo que esses fatores tenham algum peso, é sempre bom lembrar que cabe sempre a nós mesmos direcionar o leme do barco de nossas vidas. É nosso o poder da decisão, mas também o ônus da responsabilidade.
 
Quem não decide aceita as decisões da vida, ou seja, dos outros. Ao colocar-se como inocente diante das possíveis decisões erradas, na verdade torna-se impotente para construir seu próprio destino. O preço da inocência é a impotência. O preço do poder é a responsabilidade. Não há como não se molhar ao sair na chuva. O único jeito de não se molhar é ficar em casa, quieto, vendo a vida passar pela janela. Sendo espectador, não protagonista.
 
As alternativas
 
Se você se sente estagnado por não ter realizado aquele sonho antigo, ou se não consegue encarar as dificuldades naturalmente, talvez seja hora de rever suas motivações e até mesmo seus objetivos. Talvez você descubra que a meta que está orientando sua vida não é exatamente o que deseja de coração. Nesse caso, mude de rota, pois nunca é tarde para lutar por aquilo que queremos, acredite.
 
Seguir em busca de um objetivo é comprometer-se com um sonho, senão, não vale a pena. E esse compromisso deve se traduzir em esforço, persistência, determinação e muito trabalho. A maior parte das pessoas quer muito alguma coisa, mas se recusa a encarar o trabalho pesado. Prefere acreditar na velha e boa fada madrinha ou no gênio da lâmpada, que, mais dia, menos dia, podem aparecer misteriosamente para dar-lhe tudo aquilo que deseja. Evita se molhar, mas para isso não sai na chuva e, portanto, não vai muito longe.
 
Desejar e se comprometer é acreditar no potencial. Tomar decisões, escolher caminhos a serem seguidos, implica automaticamente arcar com as conseqüências. Não é fácil, mas a boa notícia é que há dois fatores que facilitam esse processo.
 
O primeiro é confiar naquilo que decidiu. Quando estamos seguros das nossas ações e decisões é mais fácil estar preparado para o que der e vier. Uma pessoa arrependida, cheia de dúvidas quanto ao que faz, dificilmente resistirá aos obstáculos. Por isso a importância do autoconhecimento, dos diálogos internos, do amadurecimento emocional.
 
O segundo fator para lidar bem com as dificuldades do caminho é encará-las de um modo diferente, mais leve. Você não precisa encarar a chuva de mau humor e ficar aborrecido com o dia cinzento. Pode aproveitar para lavar a alma com as gotas da chuva, brincar de pisar em poças d’água ou até dar um romântico – e molhado – passeio com alguém especial.
 
Encarar a dificuldade – ou a chuva – como algo negativo é uma questão de ponto de vista. Se por um lado será difícil contornar a situação, por outro haverá aprendizado e experiência.
 
E, no final das contas, você não irá simplesmente “ganhar” o que pretendia, mas sim conquistar o que tanto desejou, o que aumentará o valor do prêmio recebido pelo esforço.
 
O poeta José Paulo Paes traduziu muito bem a diferença de pontos de vista em “Falso Diálogo entre Pessoa e Caeiro”. Como se sabe, Alberto Caeiro foi um dos muitos heterônimos do poeta Fernando Pessoa. Era a encarnação de um pastor, homem muito ligado à natureza e à simplicidade das coisas. Aplicar um pouquinho de Caeiro em nossas vidas nunca é demais, pois nos tornamos pessoas mais simples, de alma mais leve. Consta que Pessoa disse a Caeiro:
 
– A chuva me deixa triste…
 
Ao que Caeiro respondeu:
 
– A mim, me deixa molhado.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.

 
Visite o site da revista: www.revistavidasimples.com.br