Razão e sensibilidade

Entre as palestras que tenho a oportunidade de proferir pelo Brasil afora, uma das mais solicitadas tem como título: “Razão e emoção como ferramentas gerenciais”. Trata exatamente do uso dessas duas qualidades da mente humana no ambiente de trabalho, e também fora dele.
 
Um dos maiores dilemas existenciais do homem moderno é como jogar adequadamente com o binômio lógica e emoção. Quando ser lógico e quando ser emocional. Como dosar adequadamente essas duas propriedades tão humanas que parecem ser antagônicas, mas que na verdade são complementares? Quanto de emoção devemos colocar em nosso trabalho e quanto de razão em nossas relações afetivas? Essas questões são pertinentes e passam por nossa cabeça mesmo sem nossa consciência.
 
Esse assunto é muito pertinente dentro da chamada Era do Conhecimento, que tem como características a grande competitividade, e a relação do conhecimento com a competência necessária para participar do jogo. E é justamente nesse cenário que começamos a encontrar as respostas para essa questão.
 
A explicação, que vem da psicologia, diz que nós não somos capazes de absorver conhecimento, mas sim de construí-lo. Em outras palavras, conhecimento não se transfere, só se constrói. Então vem a pergunta infalível: e como se faz isso? A equação é simples: conhecimento = informação + sentido + afeto.
 
Ou seja, só conseguiremos construir conhecimento se percebermos o sentido da informação e conseguirmos criar com ela algum tipo de ligação afetiva. Opa, razão e sensibilidade reunidas com um propósito comum. E o mesmo acontece no trabalho, pois a pessoa trabalha melhor pelo mesmo motivo, associando sua atividade com a percepção do valor do mesmo (sentido) e a criação de uma ligação emocional (afeto).
 
A literatura costuma tratar dessa questão com muita freqüência. Um dos melhores exemplos é o livro “Razão e Sensibilidade” da inglesa Jane Austen, que conta a história de duas irmãs, Elinor, a “racional”, e Marianne, a “sensível”. Durante toda a história o leitor fica curioso para saber qual das duas vai se dar melhor. Elas pertencem a uma família rica que, com a morte do pai, é obrigada a reduzir drasticamente o padrão de vida. Como as moças estão em idade de casar, percebem que agora essa missão será mais difícil, pois os “bons partidos” fatalmente se afastarão, pela falta do dote.
 
A sociedade inglesa da época é totalmente obcecada por “status”. Há um clima de vigilância sobre a condição financeira de todos, e são valorizados os sobrenomes e os títulos. É claro que as duas irmãs estão condenadas a sofrer muito, pois começam a encontrar resistência das famílias a que pertencem os rapazes por quem se apaixonam.
 
As duas irmãs se ajudam mutuamente, e conseguem, dessa forma, suportar as vicissitudes e atingir seus objetivos. A autora deixa claro que uma depende da outra, jogando com a idéia de que todos nós somos dotados das duas qualidades mentais, a lógica e a emoção, e que ambas são importantes e complementares.
 
Todos nós somos Elinor e Marianne, e é bom que assim seja, na proporção adequada que cada momento exige. E o adequado é decidir racionalmente e viver emocionalmente. No entanto é muito grande o número de vezes que agimos ao contrário disso, tomando decisões emocionais e depois tendo que viver racionalmente, até para corrigir os erros das decisões inadequadas.
 
No final da história ficam todos felizes, menos os esnobes rancorosos. E o curioso é que a racional Elinor cede aos encantos do amor verdadeiro e apaixonado de um tal Edward, enquanto a sensível Marianne dobra-se ao comportamento lógico e adequado do coronel Brandon.
 
É a história de nossas vidas. Razão e sensibilidade são complementares e necessários, e não opostos e excludentes. Aprendemos quando percebemos o significado do que estamos aprendendo, trabalhamos melhor quando conseguimos estabelecer uma ligação afetiva com nosso trabalho. E sempre lembrando: decidir racionalmente, para poder viver emocionalmente. Jamais o contrário!
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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