Saudades do Sady

Ele era formado em farmácia. Até os anos sessenta os farmacêuticos eram autorizados a conduzir a anestesia dos pacientes durante as cirurgias, pois não havia número suficiente de médicos anestesiologistas, ou anestesistas como são mais conhecidos. E era a isso que o doutor Sady se dedicava: a anestesiar os pacientes dos cirurgiões no hospital local. Morava na cidade de Ponta Grossa, a cerca de cem quilômetros ao norte de Curitiba, onde construiu uma imagem de competência e de qualidades humanas.
 
Só que o progresso tem que chegar, e junto com ele as inovações, os costumes e as novas exigências. De um dia para outro, os farmacêuticos foram proibidos de aplicar anestésicos durante cirurgias, e o Sady perdeu sua profissão. E o pior, ficou sem o dinheiro que tinha para receber da Previdência, por serviços já realizados. O que poderia ele fazer, considerando que já tinha passado dos sessenta anos, o que, na época, dava-lhe status de “idoso”?
 
O que você faria? Que tal uma aposentadoriazinha, pequena é verdade, mas mais do que suficiente para viver a vidinha de uma cidade do interior? Para muitos seria a saída lógica. Mas não para o Sady. Sua opção: estudar medicina.
 
Lembro-me até hoje do Sady com carinho durante os difíceis anos da faculdade, pois tive a sorte de ser seu colega. Ele não tinha a mesma facilidade para acompanhar as aulas como já havia tido antes, principalmente considerando que ele vinha todos os dias de ônibus desde sua cidade para estudar na capital, viajando, portanto, duzentos quilômetros diariamente; mas durante todos os anos de convivência nunca o escutamos queixar-se das dificuldades, da viagem, do governo, da sorte. Nada disso. Ele não era homem dado a queixas, e sim a superações.
 
Durante o terceiro ano da faculdade tivemos a disciplina de técnica operatória, que incluía muitas cirurgias realizadas em animais, inclusive em cães. Quem era o anestesista? O Sady é claro, e ele anestesiava com arte e com um indisfarçável orgulho. E, quer saber, ele era muito bom no que fazia. Enquanto outros animais muitas vezes morriam, não por causa da cirurgia, mas por causa dos erros anestésicos, os atendidos pelo experiente anestesista nunca tiveram problema. Grande Sady!
 
Lembro-me de meu colega toda vez que ouço alguém queixar-se que já está muito velho para um novo empreendimento, para uma volta aos estudos, para uma viagem longa, para mais um casamento, para ter um filho, ou para qualquer tipo de iniciativa que exija a tal “juventude”, como se isso fosse uma espécie de qualificação profissional, e não o que realmente é: um estado de espírito. Conheço maravilhosos “jovens” de setenta anos, e horríveis “velhos” de quarenta.
 
Verdi escreveu a ópera Falstaff, sua obra prima, aos oitenta anos, e continuou escrevendo ainda depois. Michelangelo aceitou a encomenda de pintar a Capela Cistina aos sessenta e três anos. Platão deu aulas em sua academia já octogenário. Chaplin dirigiu a Condessa de Hong Kong aos setenta e oito. A história está repleta de figuras que realizaram grandes feitos em idades avançadas, pois tiveram a capacidade de perceber que não há limites para a determinação, para a vontade e para a crença.
 
No entanto, quando comecei a escrever sobre o fato de que os limites não são impostos ao homem pelo envelhecimento do corpo, mas pelo envelhecimento do espírito, resolvi não buscar inspiração em personagens das ciências, das artes ou da filosofia, pois estes há muitos, mas afinal, eles são “heróis”, e nós apenas mortais comuns. Com todo o respeito que tenho por essas pessoas incomuns, devo dizer que os exemplos de total desprezo pelo passar dos anos são mais fortes quando encontrados em pessoas de carne e osso, com as quais todos nós temos a chance de conviver.
 
O Sady é apenas um desses exemplos. Conheço outros, todos meus verdadeiros heróis, mas o doutor Sady é um símbolo valioso. Não tive mais notícias dele, mas não importa, pois ele vive em minha lembrança e de muitos outros colegas de formatura, para quem ele é mais do que um exemplo, é uma inspiração.
 
Texto publicado sob licença da revista Vencer.
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