Ser ou não ter, eis a questão

Não, caro leitor, o título acima não foi grafado incorretamente. Eu sei que você lembrou imediatamente da frase de Shakespeare, “ser ou não ser, eis a questão”, pronunciada por Hamlet, angustiado pelas dúvidas sobre se seu pai havia sido assassinado. Ele se referia ao fato de que nem sempre as pessoas são o que parecem ser.
 
Contando a história do rei da Dinamarca, que é assassinado por seu irmão que, além de ficar com o trono ainda casa-se com a viúva, mãe de Hamlet, Shakespeare denuncia o lado sombrio das pessoas que, mesmo por trás de atos aparentemente nobres, escondem seus interesses pessoais. Essa característica da personalidade faz parte da tragédia humana.
 
Os interesses pessoais não são, em si mesmos, um erro. Afinal, o desejo de crescimento pessoal, de ascensão social e profissional, de reconhecimento, de realizações e de possuir coisas belas, é salutar e até necessário para nossa mobilização. A ambição construtiva cria um tipo de energia que se transforma em ação, em capacidade de superar dificuldades e de ajudar a mudar o mundo.
 
Esta revista, que tanto tem colaborado para o desenvolvimento de pessoas chama-se exatamente Vencer!, pois traduz um dos interesses pessoais do ser humano, que vive em uma espécie de disputa permanente e precisa vencer todos os dias. Entretanto, em inúmeras matérias que aqui já foram publicadas, ficou evidente que em um mundo próspero e também ético, alguém vencer não implica, necessariamente, em alguém perder.
 
A disputa por uma fatia do mercado pode acontecer pela retirada de outro, chamado “concorrente”, ou pode acontecer através de um esforço para o aumento do tamanho desse mercado. E é nesse ponto que entra a diferença e, ao mesmo tempo, a complementaridade dos verbos citados no título.
 
Observe que as pessoas sempre querem “ter”, o que, como já disse, é saudável e necessário. O problema surge quanto o “ter” não vem acompanhado pelo “ser”. E sem o “ser” fica difícil manter o “ter” por muito tempo.
 
Todos temos, mesmo sem perceber, um planejamento estratégico pessoal, pois no mínimo, todos desejamos algum dia alcançar determinadas conquistas, como a casa própria, o carro do ano, a viagem internacional. O erro está em que o planejamento se esgote nesses desejos de posse ou de consumo. O planejamento completo não começa pelo ter, mas termina nele.
 
O planejamento começa mesmo é pelo “ser”. O que você deseja ser, como cidadão, como pai, amigo, companheiro, profissional, e qualquer outro papel que você desempenhe na sociedade? Continua pelo “aprender”, que é uma necessidade que não se esgota quando saímos da escola, antes pelo contrário. Em geral realmente começamos a aprender quando sentimos a necessidade de saber coisas que melhoram nosso trabalho.
 
A seqüência natural é o “fazer”, que significa colocar em prática aquilo que somos e aquilo que aprendemos, e quando finalmente entramos no jogo. E por último, o “ter”, que dessa forma transforma-se em uma mera conseqüência dos capítulos anteriores.
 
As habilidades que permitem que alguém entre e se mantenha no mercado de trabalho contemplam todos esses valores. Não se pode desejar ter sucesso sem se preparar para ele. Há quem tente, e o que acaba encontrando é a própria tragédia. O sucesso é muito cruel para quem não percebe que entre o desejo e a realização do mesmo, existe um espaço que inspira muitos cuidados. Como diria Shakespeare, é onde “há mais mistérios do que nossa vã filosofia possa imaginar”!
 
Texto publicado sob licença da revista Vencer.
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