Siga sua intuição

Nestes tempos tão conturbados, há dias em que parece que nós não sabemos mais em quem confiar. Então descobrimos que existe algo mais, com uma incrível capacidade de nos ajudar a viver melhor, e que está bem dentro de nós mesmos: nossa própria intuição.
 
Mas o que é verdade e o que é mito a respeito desse tema tão interessante quanto polêmico? Será que podemos desenvolver nossa capacidade de ter intuições confiáveis e, caso afirmativo, como podemos fazer isso? Então vejamos:
 
Primeira história:
A enfermeira Sofia procura o Dr. Miranda e é bastante enfática: – “doutor, o paciente do leito seis precisa de uma revisão. Ele está mal e não deve passar desta noite”.
 
O médico corre à enfermaria, examina o paciente, verifica os dados vitais e a medicação e conclui: – “Sofia, não se preocupe, não há nada de errado com o paciente do leito seis. Seu estado é estável e amanhã deverá estar melhor”.
 
No dia seguinte, bem cedo, o Dr. Miranda é informado que seu paciente morreu durante a noite.
 
Segunda história:
Em uma segunda feira, logo cedo, o corretor da Bolsa de Valores telefona para seu cliente, um grande investidor, e recomenda: – “quero lhe aconselhar a vender as ações da TechnoWall, estou achando que elas vão cair de preço meio logo”.
 
O cliente estranha, pois justamente essas ações foram as que mais lucro lhe deram nos últimos dois anos. Ele acha a Techo Wall é uma empresa sólida e competitiva, entretanto resolve obedecer ao seu corretor: – “eu não entendo porque, mas você deve saber o que está fazendo, portanto mande vender as ações”.
 
Em menos de uma semana, o presidente da tal empresa aparece metido em escândalos financeiros, é acusado de maquiar o balanço da empresa e ameaçado de prisão. As ações despencam a um centésimo do valor. O corretor evitou uma perda de milhões.
 
Terceira história:
Um general da antiguidade recebeu de seus oficiais todas as informações de que precisava para tomar a decisão de ataque à fortificação inimiga, e tudo sinalizava à cautela… esperar um pouco mais. No entanto o general de repente saiu-se com esta: – “não me perguntem porque, mas nós vamos atacar imediatamente”.
 
Apesar da resistência dos oficiais, o ataque foi realizado e após dura batalha o forte foi tomado. Dois dias após a vitória, uma tropa inimiga bem armada chegou ao forte, com a missão de ajudar a protegê-lo, mas foi rapidamente vencida. Se o ataque tivesse sido protelado, o forte teria se tornado imbatível.
 
O general vitorioso comemorou sua vitória e provocou grande admiração entre seus comandados, especialmente com comentários do tipo: – “ele teve uma intuição”!
 
Em que essas histórias tão diferentes se parecem?
 
No fato de que as pessoas, muitas vezes, tomam decisões ou manifestam opiniões que, aparentemente, contrariam a lógica e o senso comum. A enfermeira, o corretor e o general tiveram o que se convencionou chamar de “intuições” a respeito de fatos que ainda estavam por acontecer, e que acabaram acontecendo.
 
Desde sempre o homem se questiona a respeito dessa capacidade de decidir baseado em fatos não explícitos. E a grande pergunta é: – “será que existe algo de místico ou sobrenatural na capacidade humana de intuir, ou trata-se de um fenômeno que a ciência aceita e explica?”
 
Então vejamos: intuição deriva do latim intueri, que significa algo como “ver por dentro”, “perceber o que está oculto para outros”. Estamos falando de uma capacidade humana de sentir, ou, em outras palavras, de um “sentido”.
 
Sentidos são atributos da Natureza que permitem ao ser humano estar conectado com o mundo que o rodeia. Os cinco sentidos clássicos são: a visão, a audição, a olfação, a gustação e o tato. São eles que permitem nossa percepção dos detalhes do mundo, e nossa conseqüente interação com ele. Vivemos tão melhor quanto melhor percebemos o que nos rodeia. A intuição seria, então, mais um sentido colocado à nossa disposição, pois sua finalidade é exatamente a mesma que os demais: melhorar nossa relação com o mundo e facilitar a nossa vida.
 
A dificuldade que temos em entender a intuição como um sexto sentido, é o fato de que ele não apresenta um órgão específico. Para os demais temos os olhos, os ouvidos, o nariz, a boca e a própria pele. Já a intuição não tem um “periférico”, usa direto a “CPU”, ou seja, o próprio cérebro.
 
A maior parte das informações que temos hoje sobre o cérebro foram descobertas nos últimos vinte anos. A neurociência é um dos capítulos da biologia humana que mais avança na atualidade e, a respeito da intuição, nos diz algumas coisas. Por exemplo, que para que a mesma ocorra, pelo menos duas condições são necessárias:
 
– A existência de um registro inconsciente derivado de uma experiência anterior e;
– Uma ciclagem cerebral baixa, ou seja, um cérebro relaxado.
 
O incrível registro sutil
 
Vamos por partes. Um registro inconsciente nada mais é do que uma memória que a pessoa desconhece, porque foi criada ao longo do tempo, de maneira muito sutil, capaz de permanecer na mente sem ser notada pela consciência.
 
A enfermeira Sofia da história acima, por exemplo, não sabe dizer ao Dr. Miranda porque ela acha que o paciente está mal e vai morrer, mas a verdade é que ela já viu centenas de vezes, ao longo de sua carreira, aquilo que se costuma chamar de “os pródromos da morte”: pequenos sinais que, muitas vezes, antecedem o fim, como o olhar sem brilho, a apatia, a resignação, a entrega. As enfermeiras, no hospital, têm mais contato com os pacientes do que os médicos, por isso elas muitas vezes fazem “leituras” que escapam a estes.
 
Da mesma forma, o corretor de valores pode ter reparado que nas fotografias dos últimos tempos, veiculadas pela imprensa, o presidente da tal Techno Wall apareceu muito abatido, denotando preocupação, o que antes não acontecia. O corretor, no entanto, não sabe explicar essa percepção, pois ela pertence ao inconsciente. E o velho general, por sua vez, notou, no inimigo, uma calma e uma confiança que significavam que, possivelmente, estavam por receber reforços. Só que ele não consegue transmitir esse sentimento aos seus subordinados com palavras, por isso lança mão de sua autoridade: “vamos atacar porque eu quero”, e pronto.
 
Nenhum dos três tem poderes sobrenaturais, é dotado de qualidades mediúnicas ou é capaz de premonições mágicas. Apenas são pessoas experientes, que construíram, ao longo de suas carreiras, um imenso conhecimento tácito. A palavra “tácito” deriva do latim tacitus, que significa “oculto”, algo que não pode ser visto com facilidade ou percebido pelos sentidos comuns. E que também não pode ser explicado com facilidade.
 
Todos nós temos um estoque de cultura tácita, que é tão maior quanto maior for nossa experiência de vida. Não é incomum um professor perceber, logo na primeira aula, quais os alunos interessados e quais os que darão mais trabalho. Também um jornalista é capaz de intuir quando uma pessoa será uma boa fonte de informações e um bom entrevistado, ou não. E isso também vale para os arquitetos, os administradores de empresas, os vendedores, e também para as mães e donas de casa.
 
Intuir, portanto, é enxergar fora, olhando para dentro.
 
O cérebro e suas ondas
 
A atividade cerebral pode ser medida com o uso de um aparelho apropriado – o eletroencefalógrafo, que registra os ciclos que as várias partes do cérebro produzem. Há quatro tipos de ondas cerebrais, de acordo com sua freqüência, designadas por letras gregas: beta, alfa, gama e teta.
 
Acordados, em atividade cerebral de trabalho ou aprendizagem, estamos em beta, porém essa ciclagem pode oscilar dentro de sua faixa, sendo mais alta ou mais baixa. Em estado de nervosismo, ansiedade, stress, a ciclagem tende a subir e, quanto mais alta, menor a acuidade dos sentidos. Você já reparou que nervoso você não presta muita atenção às opiniões ou informações que recebe?
 
Uma pessoa muito tensa pode olhar para sua mesa e não ver o documento que estava procurando, ou não perceber que os óculos que ela precisa para ler estão em sua própria testa. Ora, se a ciclagem elevada diminui a acuidade dos sentidos que dispõe de órgãos específicos, o que dizer da intuição, que é um sentido mais fino e sensível? Obviamente, a intuição depende de um estado mental de relaxamento e serenidade. Não se pode confiar na intuição de uma pessoa nervosa ou angustiada.
 
Todos os exercícios indicados para quem deseja aumentar seu poder de intuir são, na realidade, exercícios de diminuição da ciclagem cerebral, que visam aproximá-la do estado alfa, como o que se obtém através da meditação, da contemplação, da yôga, do tai chi. Esse “acalmar” da mente é o que permite a “visão para dentro”.
 
A consultora Patrícia Einstein, que mora em Nova York, e atende a empresas e pessoas interessadas em seu curso chamado “Inner Voyage” – a viagem para dentro, em seu livro “Intuição – O caminho da Sabedoria Interior”, lançado no Brasil pela Editora Cultrix, explica nada menos que 57 exercícios para aumentar a intuição. Praticamente todos objetivam recuperar a serenidade e aumentar a percepção, para entrar no “fluxo”, que é como ela chama o grande reservatório de informações, ou “fonte intuitiva”.
 
O médico Raymond Moody, Ph.D., que faz a apresentação do livro lembra que no mundo moderno a maioria das pessoas não dedica nem alguns minutos para estabelecer comunicação com a sua própria mente. Ao contrário, as pessoas buscam as respostas apenas no mundo exterior, e desperdiçam seu próprio arsenal de informações já codificadas e armazenadas no inconsciente. Aqueles que conseguem, aumentam sua capacidade criativa e produtiva. Ele lembra de alguns gênios da humanidade, como Thomas Edison, que encontrava na simples sesta uma ferramenta para resolver os problemas complexos que o intrigavam.
 
O grande mistério
 
A capacidade de intuir, e o respeito pela intuição de pessoas célebres sempre estiveram no cardápio da curiosidade humana. Grandes pensadores deixaram suas impressões sobre o tema. Platão, por exemplo, distinguia quatro formas de conhecimento: a crença, a opinião, o raciocínio e a intuição. Ele considerava menores a crença e a opinião, pois dizia que ambas faziam parte da ilusão e das aparências. Já o raciocínio, segundo o filósofo, é importante para treinar o pensamento, e deixá-lo preparado para atingir a intuição e, dessa maneira acessar o mundo das idéias, ou a essência que constrói a realidade.
 
Em tempos mais modernos, já no século XX, coube a Carl Gustav Jung investir inteligência no tema. O mapa junguiano da mente, ou da alma, como ele preferia, é um modelo platônico, pois também trabalha com as “idéias”. A diferença reside no fato de que Jung trata as idéias como fatores psicológicos, e Platão como formas eternas, ou abstrações.
 
Para ambos, entretanto, a intuição é fundamental para a construção das idéias. A ambição científica de Jung o impelia além do conhecimento científico de sua época e, atualmente a ciência continua tratando de recuperar muitos dos seus pensamento, entre eles, a existência da intuição.
 
Em seu livro intitulado Tipos Psicológicos, publicado primeiramente em 1921, Jung também se refere a quatro atividades mentais que constroem o que costumamos chamar de humano: pensamento, sentimento, sensação e intuição. Apesar de classificar a pessoas de acordo com sua atividade predominante, Jung afirmou que todas elas estão presentes em todos os indivíduos.
 
Para perceber, entender e interagir com o mundo da melhor maneira, todos precisamos nos certificar de que algo existe (sensação), avaliar esse “algo” e definir o que é (pensamento), estabelecer se é ou não apropriado (sentimento) para então indicar sua aplicação em nossa vida e seu destino (intuição).
 
A intuição precisa estar ancorada em uma experiência anterior, mas esta não necessariamente é idêntica, mas apenas semelhante à presente. A sincronia dos eventos pode ocorrer, inclusive através dos arquétipos, como explica Jung, que nada mais são do que imagens psíquicas do inconsciente coletivo. Algumas experiências que pensamos que são nossas, na verdade são patrimônios da humanidade, e chegam até nós através da cultura em que estamos inseridos. Estar atento a tudo, portanto, aumenta nossa capacidade de utilizar nossa intuição e de decidir acertadamente.
 
A intuição na prática
 
No começo deste artigo há alguns exemplos de ações intuitivas. Como tantas outras, essas cenas pertencem à historiografia popular. Mas há muitos casos registrados, e citados por famosos, como Einstein, que dizia que “muitas vezes confio estar certo, sem, entretanto saber a razão”; e há também estatísticas que nos deixam, no mínimo, pensativos, como a dos 90% de ganhadores de prêmios Nobel que enfatizam a importância da intuição e da criatividade nas principais descobertas humanas.
 
Em qualquer setor onde decisões são necessárias constantemente, a intuição se faz presente. O Instituto Internacional de Desenvolvimento em Gestão – IMD, com sede em Lausanne, na Suíça, um dos mais respeitados centros de ensino e pesquisa em gestão de empresas do mundo, entrevistou 1.312 altos executivos em nove países, e verificou que 80% deles consideram que a intuição foi importante na formulação de estratégias empresariais bem sucedidas. Desses, 53% afirmam que usam a intuição na mesma proporção que o raciocínio lógico em sua rotina de decisões no mundo dos negócios.
 
O tema é de tal ordem importante que não se admite relegar a intuição ao mundo místico, desconhecido, que depende apenas de se acreditar nele. Evidências são importantes, e a cada dia elas são mais abundantes. Há até uma corrente filosófica, chamada exatamente filosofia intuista, proposta pelo filósofo escocês William Hamilton há mais de dois séculos. Afirma essa filosofia que a intuição é a mais poderosa manifestação do conhecimento, pois se trata de uma iluminação súbita, que alarga a compreensão humana, e transforma o homem em um ser verdadeiramente único e especial.
 
Há, como vimos, registros de mais a respeito da intuição para que demos atenção de menos esse assunto. Portanto, se for preciso, siga, sim, sua intuição, mas faça um favor a si mesmo: não caia no conto da “vida fácil” derivada de iluminações repentinas, porém irresponsáveis. Nem suas, nem de ninguém. Como todas as qualidades, a intuição se expande com o desenvolvimento integral do ser humano. E para tanto, a experiência, a leitura, a serenidade, a bondade e a integridade são ingredientes importantes e, mais que isso, imprescindíveis.
 
E para pensar, ficam cinco recomendações que sempre estão presentes nas literaturas de como aumentar a intuição:
 
– Abra o canal, permita-se acreditar em suas próprias intuições;
– Esteja atento a tudo e não menospreze os detalhes;
– Procure manter a serenidade nos momentos de decisão;
– Exercite sua intuição apenas por causas boas e dignas;
– Trate de manter saudáveis seu corpo e sua mente.
 
Sucesso e… boas intuições!
 
Texto publicado sob licença da revista Você s/a, Editora Abril.
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