Só pra variar

Porque temos uma tendência tão forte de manter modelos, fazendo sempre a mesma coisa, e do mesmo jeito? Como são construídos nossos padrões de comportamento? Porque temos dificuldades em transformar hábitos que nos incomodam? Afinal, porque resistimos a variar nossas reações?
 
O que está por trás de nosso hábito de fazer as coisas de modo repetitivo e automático é explicado pelo desenvolvimento de nosso cérebro. A ciência diz que a mente humana tem duas partes que se conflitam e se complementam. Uma delas faz a opção (inconsciente) pela estabilidade, por deixar tudo como está, imóvel. Faz isso porque deseja que o corpo economize energia, já que para repor o que gasta deve providenciar novo alimento, o que significa sair da toca e caçar, expondo-se ao perigo de morrer. Então é melhor ficar quieto, não gastar energia, fazer só o necessário, apenas a rotina básica da sobrevivência… sempre igual. A segunda parte, mais recente na evolução biológica do ser humano, ao contrário, busca a atividade, a mudança, a construção, fundamental para o desenvolvimento humano.
 
Eis o dilema. Continuar fazendo sempre a mesma coisa, sem variar, é mais confortável, mas provoca estagnação, menos evolução. Quando revolvemos fazer as coisas de modo diferente “só para variar”, nos assustamos com o desconhecido, mas também nos deleitamos com a novidade. Ficamos felizes com nossa capacidade de ousar, mas percebemos que isso exige coragem e disposição para o gasto energético de fazer diferente.
 
A dualidade humana
 
O conflito vem do fato de que o ser humano tem desejos e necessidades que se contrapõem. Necessita trabalhar, mas deseja descansar. Deseja emagrecer, mas tem vontade de comer doces. Sabe que precisa mudar alguns hábitos, mas se apega a eles como se fossem a garantia de sua sobrevivência.
 
Vivemos em contato com esses conflitos, e isso nos angustia. Entretanto, seria útil se pudéssemos perceber que muitas vezes não estamos diante de um conflito, e sim de uma dualidade. Dualidade é a condição da coexistência pacífica de princípios opostos, contrários. Dual é o dia e a noite, vida e morte, amor e ódio, paixão e razão. Na vida diária, prática, real, palpável, também somos assim. Queremos a rotina por ser conhecida, a estabilidade por ser confortável. Mas também desejamos a aventura e a mudança, pois estas nos alimentam da curiosidade e da emoção.
 
A seguinte história, real, explica parte da dualidade humana, e a justifica como necessária: o Instituto Internacional para Cooperação Intelectual, em Paris, propôs ao físico alemão Albert Einstein, em 1932, que convidasse uma pessoa para realizar um intercâmbio de pontos de vista sobre algum problema que caberia a ele selecionar. Einstein então, procurou um estudioso cujo pensamento tivesse um objetivo habitual diferente do seu. Este estudioso era Sigmund Freud.
 
Einstein escolheu para debater com o pai da psicanálise, um tema que considerava o “mais urgente de todos os problemas que a civilização tem de enfrentar”: a guerra. Escreveu-lhe uma carta contendo a seguinte questão: “Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra?”
 
Freud respondeu explicando os dois tipos de instintos humanos: um que tende a preservar e a unir, o qual denominou instinto erótico, e outro que tende a destruir e matar, chamado instinto agressivo ou destrutivo. Estas denominações nada mais são do que uma formulação teórica da oposição conhecida universalmente por amor e ódio. O ser humano exercendo sua dualidade.
 
Saindo da inércia
 
O interessante é que Freud não faz juízos éticos do bem e do mal, pois diz serem ambos os instintos essenciais para a existência dos fenômenos da vida. Por exemplo, o instinto de autopreservação é de natureza erótica, mas deve ter à sua disposição a agressividade a fim de atingir seu propósito. Da mesma forma o instinto de amor quando dirigido a um objeto, necessita de contribuição do instinto de domínio para que obtenha sucesso.
 
Assim, é possível explicar muitas ações humanas, sejam elas benéficas ou não. O que se faz necessário, no entanto, é não permitir que os instintos destrutivos imperem para atender o desejo de dominação. Neste caso, o ideal seria transformar tal instinto de dominação pejorativo para um instinto de dominar um “saber”, tornando a civilização mais voltada para a cultura e para o amor. Pois afinal, como diz Freud ao terminar sua carta, em resposta a Einstein, “tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra.”
 
Freud não se referia apenas às Grandes Guerras, mas sim às coisas cotidianas como o relacionamento entre os seres humanos, com suas diferenças e contradições. E, acima de tudo, a relação do homem consigo mesmo, especialmente em suas capacidades opostas, como a de construir e destruir, e a de estagnar e progredir.
 
Mas, como transformar ações e sentimentos ruins, negativos, em algo bom? O primeiro e mais óbvio passo é ter a consciência de que temos comportamentos negativos que vivem se repetindo, e que podemos nos comportar de forma diferente, saindo do velho padrão de reação. O mais difícil nesse processo é começar. Em outras palavras, sair da inércia, que exige mais empenho e uma baita força de vontade.
 
Equilibrar rotina e ousadia
 
A música, como todas as artes, serve para agradar o espírito, mas também para nos fazer pensar. Cotidiano, de Chico Buarque em seis estrofes mostra como estamos todos enredados em uma rotina que nos impede de fazer coisas diferentes, dificulta nosso desejo de ousar e aprisiona nosso poder de sonhar.
 
A estrofe mais conhecida é a primeira: “Todo dia ela faz tudo sempre igual. Me sacode às seis horas da Manhã. Me sorri um sorriso pontual. E me beija com a boca de hortelã”. Essa é, digamos, a coisa bonita do cotidiano, a maravilha da segurança de acordar todos os dias ao lado da pessoa querida e se sentir amado. Precisamos disso, da rotina segura e do amor, que garantem nossa integridade emocional, reforça nossa disposição para a luta, sustenta a certeza de que teremos para onde voltar após a batalha de cada dia.
 
No entanto, após ser dispensado com um beijo de “boca de café”, nosso personagem finalmente chega à terceira estrofe, em que ele se defronta com a realidade, aquela que ele gostaria de mudar, de fazer diferente, só para variar. Diz: “Todo dia eu só penso em poder parar. Meio dia eu só penso em dizer não. Depois penso na vida pra levar. E me calo com a boca de feijão”.
 
É engraçado como o homem convive com suas diferenças internas. Por um lado, deseja rotina e da constância. Ao fazer todos os dias exatamente a mesma coisa sente-se seguro, porque domina o ambiente e a atividade. Sabe fazer, quando fazer e onde fazer. E na maioria das vezes não se detém para discutir “porque” fazer. Por outro lado deseja a aventura, o desconhecido, o perigo, o fazer diferente, a ousadia do passo mais largo, a mão estendida em direção ao vazio.
 
Essa é a dualidade, quando percebemos que precisamos tanto da segurança quanto da ousadia, e que seremos tão mais saudáveis quanto maior for o equilíbrio entre essas duas prioridades, passamos a viver melhor pois recuperamos nossa integridade. Não há nada de errado em fazer “todo dia sempre igual”, desde que também possamos fazer diferente, nem que seja, digamos, “só para variar”.
 
Para temperar a vida
 
A variabilidade da vida não precisa se prender a grandes guinadas, como mudar de emprego, de cidade ou de estado civil. A vida ganha mais sabor quando transformamos as pequenas ações cotidianas. Que tal experimentar um prato diferente do feijão-com-arroz? Conhecer de forma verdadeira o colega do trabalho? Surpreender o companheiro com uma gentileza? Ou ainda, fazer um caminho diferente daquele que você está habituado para ir e voltar do trabalho? Ao quebrar o piloto-automático, saímos do lugar-comum, criamos espaço para a criatividade aflorar, enfim, damos uma boa temperada na vida.
 
Variar significa também enriquecer a vida com ações carregadas de significado positivo que, no final, fazem a grande diferença, provocam sorrisos de admiração ou de agradecimento contido. Seja mais carinhoso, mais atencioso, mais cuidadoso com os movimentos e com as palavras. Nem que seja só para variar.
 
Só para variar, beije quem está ao seu lado antes de levantar, sorria para caixa do supermercado, acene para o guarda de trânsito, cumprimente alegremente seus colegas de trabalho, visite seus avós. Só para variar, leia filosofia, escute música, coloque uma flor em sua escrivaninha. Só para variar, transforme sua vida em algo mais leve, coloque uma pitada de alegria em tudo o que faz, ensine tudo o que sabe, aprenda tudo o que estiver ao seu alcance. Só para variar, pense em si mesmo como parte de um todo maior, chamado humanidade. Sabe o que pode acontecer com isso? Só para variar, você se sentirá mais feliz.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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