Sobre as necessidades humanas

“Não argumente com a necessidade. Os mais pobres mendigos têm dentro de suas humílimas posses algo supérfluo. Proíba-se a Natureza de ter mais que a Natureza, e a vida de um homem se igualará à de um bicho”
 
(William Shakespeare, Rei Lear, ato II, cena 4)
 
Necessidade é um substantivo feminino. Talvez por isso seja difícil de explicar, apesar de ser fácil de perceber. Qualquer um de nós sabe exatamente qual a necessidade que tem; do que está precisando naquele momento. Mas entender a complexa trama das necessidades humanas é bem mais complicado.
 
Para começo de conversa, o que é necessário para uma pessoa pode não ser para outra. E o que é necessário para mim agora poderá não ser mais daqui a pouco, ou daqui a um ano. Necessidade, portanto, é um conceito variável. O que se sabe com certeza, é que as necessidades existem para preservar a vida, por isso qualquer ser vivo está sempre ocupado em atendê-las. Precisamos comer, descansar, excretar, ter calor corporal e até fazer sexo, pois essas atividades garantes nossa sobrevivência e de nossa espécie.
 
OK, fica então entendido que as necessidades estão ligadas com a sobrevivência. Então o que pensar daquela amiga que diz, enfática, com ar de desespero: “Preciso urgentemente renovar o guarda-roupa”? Será isto uma necessidade real? Se ela não comprar roupas novas irá colocar sua sobrevivência em risco? No primeiro momento temos uma tendência a responder que não. Que ninguém tem “necessidade” de comprar roupas novas, acompanhar a moda, as tendência, incorporar as novidades. Que se trata apenas de um “luxo”. Pode ser, mas muita calma nessa hora – vamos rever o conceito de sobrevivência.
 
Quando não atendemos às nossas necessidades colocamos nossa sobrevivência em risco, só que nós não temos só a sobrevivência física. Temos também a sobrevivência emocional, intelectual, social, estética e assim por diante, que, em última análise, são conquistas pessoais. Portanto, à medida que vamos subindo os degraus da realização, alcançando novos patamares de estrutura em nossas vidas, novas necessidades surgirão. O que significa que quanto mais realizamos, quanto maior nosso sucesso, maiores as necessidades, e isso é ótimo, pois é exatamente o que impulsiona a evolução da sociedade humana. Senão ainda seriamos como o homem das cavernas, que só queria manter-se vivo.
 
Quem se preocupa apenas com sobreviver fisicamente está em um estágio inicial de sua vida, ou pertence a um grupo humano primitivo. Portanto quando alguém diz que precisa urgentemente comprar “aquele” vestido, respeite seu grau de necessidade, pois ele representa seu momento de vida e significa que suas necessidades básicas já estão resolvidas. Ainda bem!
 
É claro que tem gente que exagera, que compra por comprar, que deposita no consumismo a esperança de resolver o vazio de suas vidas. Felizmente não é a maioria, e com certeza não é alguém que se detém para ler um artigo com este. Para uma mulher que precisa vestir-se com elegância, inteligência, praticidade e bom gosto, o conceito de necessidade encontra-se em um patamar superior. Ela quer da vida mais do que simplesmente manter-se viva. Ela quer ser mais, não apenas ter mais. E, parodiando Shakespeare, proíba uma mulher de ser mais que uma mulher e ela se igualará a uma fera.
 
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