Superação

“Gostaria de saber mais sobre a capacidade de superação do ser humano. Eu mesma sou portadora de deficiência auditiva, mas possuo defesas e aptidões desenvolvidas em função dessa limitação.” (Maria de Fátima Ribeiro, por e-mail)
 
Realmente, a capacidade de superar as adversidades da vida confere ao ser humano uma certa qualidade dos deuses. Os casos verídicos, como o da leitora Maria de Fátima, são o melhor meio para entendermos essa inigualável oportunidade de aprendizado e de engrandecimento que o destino nos dá. Há muitos exemplos na vida real, alguns notáveis, como o do pianista João Carlos Martins, que vai deixar dois legados para as futuras gerações: sua brilhante produção musical e sua imensa capacidade de superar a adversidade.
 
Martins começou a estudar piano aos 8 anos de idade e, após nove meses de aula, vencia, com louvor, o concurso da Sociedade Bach de São Paulo. Todos perceberam que estavam diante de um prodígio. O garoto desenvolveu uma rápida carreira de pianista internacional, dedicando-se à obra de Bach com devoção, a ponto de ser considerado o mais importante intérprete do célebre compositor desde Glenn Gould, o excêntrico canadense que se aposentava enquanto João Carlos despontava. Gravou a obra completa de Bach. Sua interpretação do “Cravo Bem Temperado” foi um fenômeno de vendas nos Estados Unidos, tocou nas principais salas de concerto do mundo, inaugurou, em Toronto, o memorial dedicado a Glenn Gould e por aí vai.
 
No auge da fama, aos 26 anos, sua outra paixão, o futebol, lhe pregou uma peça. Jogando uma partida com amigos no Central Park, em Nova York, caiu sobre o próprio braço e perdeu os movimentos da mão. Para qualquer pessoa isso já seria uma tragédia. Para ele, um pianista, era um desastre completo. Ou melhor: seria, se não fosse sua incrível capacidade de recuperação, apoiada por cirurgias, sessões dolorosas de fisioterapia, injeções na palma da mão. E o pianista voltou ao piano e às melhores salas de concerto. Não sem dor, mas com paixão.
 
Mas o destino não ficou satisfeito. Anos depois, em plena atividade, sofreu um assalto violento em Sófia, na Bulgária. A agressão afetou-lhe novamente as mãos, suas ferramentas de trabalho. Voltou às salas de cirurgia e de fisioterapia. E o pianista retornou ao piano mais uma vez. Até que, em 2002, a seqüela das lesões venceu e provocou a paralisia definitiva de suas duas mãos. O pianista se afastava do piano. E da música também? Não. Não ele.
 
Com 63 anos, idade de aposentadoria para os mortais comuns, João Carlos começa a estudar regência, e dois anos depois rege a English Chamber Orchestra em Londres. O que o move não é apenas o dom e o amor pela música, mas a força interior e a paixão pela vida. Sua história parece um filme. E virou um filme ­ A Paixão Segundo Martins, o documentário franco-alemão da cineasta Irene Langemann.
 
Fui assistir à apresentação da Orquestra Bachiana regida por João Carlos na Sala São Paulo. Interpretaram a Nona Sinfonia de Beethoven, obra escrita quando o compositor já era surdo ­ outro exemplo ensurdecedor (desculpe!) de superação. A apresentação daquela noite seria apenas irretocável, não fosse por dois detalhes: sendo incapaz de virar a página da partitura, o maestro teve que decorar todas as notas da obra. Regeu de cor. E ainda, no fim, após os aplausos da platéia, nos deu uma canja. Mandou que subissem um piano pelo elevador do palco e atacou a “Ária da Quarta Corda”, de Bach, originalmente escrita para violino, em que o violinista usa apenas a corda sol para executar a bela melodia. João Carlos tocou-a no piano usando apenas os três dedos que lhe restaram. Eu sei que não era sua intenção, João, mas naquele momento todos nós nos sentimos pequenos diante de sua grandeza.
 
Crises ­ boas ou ruins
 
Crises são períodos amargos de nossa vida. Representam a quebra de um equilíbrio confortável e nos fazem sofrer. Não há duvida quanto a isso, mas… Olhando mais de perto, podemos encontrar dentro da crise o lado bom, que é o motivo que nos leva a promover as mudanças necessárias. Pense um pouco, caro leitor, se nunca lhe aconteceu algo que na ocasião parecia uma tragédia e que hoje você agradece porque foi o que o levou a tomar atitudes que transformaram sua vida para melhor. Eu, que não sou diferente de ninguém, tenho uma coleção de fatos que odiei quando aconteceram e que hoje agradeço.
 
Dizem que há dois tipos de crise: a maldita e a bendita. A diferença não está na qualidade de ambas, mas na reação que a pessoa tem ­ a mesma crise provoca, em duas pessoas, efeitos diferentes, às vezes opostos. A psicologia ainda tem dúvidas sobre os motivos que levam uma pessoa a ser destruída por uma vicissitude da vida, enquanto outra aproveita a mesma oportunidade para se transformar em melhor. Ok, mas, na crise, menos psicologia e mais ação. Na dúvida, opte por reagir. É melhor perder lutando.
 
Capacidade de superar dificuldades, tragédias, dramas pessoais, todos temos. Alguns mais, outros menos, é verdade, mas perceba: essa capacidade é insuspeita, ou seja, não dá para antecipar a reação de uma pessoa diante da dificuldade. Há casos de pessoas consideradas frágeis, de baixa energia interior que, quando assaltadas por uma grande dificuldade, tiveram o botão da reação finalmente ligado. Sim, a pessoa pode ser salva pela crise. É o anjo da sorte piscando o olho, malicioso.
 
A filosofia explica. Essa qualidade que o ser humano tem de superar suas limitações foi vista de maneira diferente por dois filósofos: Schopenhauer e Nietzsche. O primeiro era um pessimista de carteirinha e achava que nada, ou pouco, podia ser feito para mudar o rumo das coisas. O segundo acreditava na capacidade do homem em “dar a volta por cima”, apesar de achar que isso não era para todos.
 
Não que Schopenhauer fosse um fatalista, daqueles que acreditam que o “destino está escrito e pronto”. Ele apenas achava que quando algo de ruim sucede na vida de alguém, isso se deve a forças externas muito maiores que as forças próprias dessa pessoa. Então, de pouco adiantaria lutar. Ele não era fatalista, mas, de certa forma, era conformista. O livro A Cura de Schopenhauer, de Irvin O. Yalom, leva o leitor, em função do nome, a achar que Schopenhauer é curado de alguma doença, mas não é isso. É o personagem central da trama que, em dado momento, “cura-se” da influência negativa de seu filósofo predileto e passa, finalmente, a acreditar no poder de superação do ser humano ­ e no seu próprio.
 
Já Nietzsche nos legou a idéia da vontade de poder. Examinando a expressão em sentido inverso, podemos atribuir poder à vontade. “Tudo o que não me mata me fortalece”, teria dito o filósofo, dando a entender que possuímos o poder de superar nossas fraquezas e nossas dificuldades, e que são estas que acionam o gatilho que dispara tal poder. A força está em nós ­ basta usá-la. Claro, para não trair seu jeito nietzschiano de ser, Nietzsche informa que nem todos conseguirão usar esse poder interior. Aqueles que o conseguirem serão objeto de admiração dos demais. Mas como saber quem será o eleito para usar o poder de superação antes de ser colocado à prova? Não há racionalidade que selecione os super-homens nietzschianos a priori.
 
Um beijo na realidade
 
Tenho um querido amigo chamado José Luiz. Talvez, se ele não tivesse sofrido um grave acidente na infância, não teria liberado a força que hoje coloca em tudo o que faz. Um certo dia, quando tinha 3 anos de idade, sua mãe de criação tentava derreter uma lata de cera de chão com gasolina e fogo, quando percebeu que perdia o controle do tamanho da labareda. A reação natural foi arremessar a lata pela janela, sem perceber que o menino estava brincando no quintal. O resultado foi a queimadura total de seu rosto. O menino foi salvo pela vizinha que abafou o fogo com um cobertor.
 
A vida que começou a ser vivida por José Luiz a partir de então tem os ingredientes de uma tragédia. Centenas de cirurgias, anos vividos na Santa Casa de Misericórdia de Santos, onde estudou parte do ensino fundamental em uma escola própria para crianças doentes, impedidas de frequentar as escolas comuns. Teve a infância e a juventude roubadas pelo destino contido em uma lata de cera.
 
A vizinha de José Luiz era uma mulher amorosa que ajudou a cuidar dele e, como era professora de violão, começou a dar-lhe aulas. E não é que o menino tinha talento? Touché, destino! Aos 16 anos ele compôs uma música que foi premiada em um festival local. Um dado bonito: o grupo de músicos que iria apresentá-la impôs a condição de que o cantor deveria ser o autor. Vidas são transformadas a partir de decisões, e a dele, naquele momento, foi a de vencer a vergonha e enfrentar a platéia. Sua auto-estima começava nessa data, e seu fabuloso processo de recuperação. Hoje, José Luiz Tejon é publicitário e jornalista, dirige uma empresa com 700 funcionários, é mestre em educação, escreveu sete livros, é professor em duas universidades, dá palestras no Brasil e no mundo e, claro, mantém sua banda de rock ­ a Dinossauros Rock Band.
 
A amizade do Tejon é daquelas que só me fazem bem. Quando liguei para ele em busca de elementos para este artigo, me dei conta de que nunca antes o havia visto como uma pessoa diferente. Ele relata tudo com naturalidade, sem a emoção dramática dos fatalistas. Contou-me que trabalha como voluntário no IPQ ­ Instituto Pró Queimados, porque dá imenso valor ao apoio da comunidade em que o acidentado vive. Quando lhe perguntei se todas as pessoas reagem como ele, disse-me:
 
­ Não, muitos usam sua condição para provocar piedade e esperar as benesses da inferioridade ­ a paradoxal desvantagem vantajosa.
 
­ O que, na sua opinião, estabelece a diferença de reação entre as pessoas diante da adversidade? ­ perguntei.
 
­ A capacidade de beijar a realidade ­ respondeu, sábio. Os que aceitam sua realidade usam a energia para a superação, e não para a revolta.
 
O Beijo na Realidade é o belo e instigante título de um dos livros de Tejon. Ao seu leitor, fica a pergunta: “Você beija sua realidade ou a esbofeteia?” ­ sem esquecer que a reação será proporcional. Pois é… mais uma vez, a diferença parece estar no poder de beijar a face certa.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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