Superar as rasteiras (Vanderlei Cordeiro)

Quando pensamos que nada de novo vamos observar no comportamento das pessoas, aparece alguém e nos surpreende, para o bem ou para o mal. Você, caro leitor, já foi alguma vez prejudicado por alguém? Quem sabe um professor que não compreendia suas dificuldades; ou um sócio que o enganou nos negócios; ou quiçá um colega de trabalho que parecia tão amigo até que ambos disputaram a mesma promoção, e o tal “amigo” acabou mostrando que só era amigo mesmo dos próprios interesses e não teve dúvidas de jogar a amizade e a ética pela janela para sair-se melhor na disputa? Se sim, saiba que você não foi o único. Se não, espere mais um pouco…
 
Estamos falando do lado mesquinho do bicho homem, cujo egoísmo garantiu sua sobrevivência no início dos tempos, e que hoje impede a criação de uma civilização harmônica e pacífica. Eis o grande desafio de entendimento para os psicólogos e sociólogos, os especialistas na mente humana, individual e coletiva. Todos estamos sujeitos a levar rasteiras, e temos mais é que estar preparados para reagir, para levantar a cabeça e continuar lutando, como se nada tivesse acontecido.
 
Foi o que aconteceu com o Vanderlei na Maratona. Cornelius, o escocês amalucado apareceu do nada para atacar quem estava na frente com o propósito retrógrado de impedir a glória do homem por seus próprios meios, como se isso fosse uma ofensa a Deus. Só que o dito highlander não contava com dois fatos: a imensa capacidade de superação do brasileiro e o gesto de solidariedade de Kossivas, o senhor grego de barbas que, em um instante, passou de espectador a protagonista e ajudou a soltar Vanderlei. Resiliência e solidariedade, uma combinação poderosa para vencer a infâmia e a intolerância.
 
Uma história parecida
 
Veja que curioso: há 25 séculos, precisamente no ano 492 a.C., um outro amalucado chamado Dario, o déspota esclarecido (só massacrava quem ousava contrariá-lo), resolveu invadir a Grécia começando por Atenas, a cidade-estado que praticava um estranho regime chamado “democracia”. O persa Dario mandou 600 navios com 200.000 soldados pelo mar Egeu em direção à costa próxima à aldeia de Maratona. Os atenienses, alarmados, mobilizaram seu pequeno exercito, mas quando perceberam a inferioridade numérica e bélica resolveram pedir ajuda a outras cidades.
 
A lógica era convocar Esparta, conhecida pela qualidade de seus guerreiros. E lá foi Filípedes (ou Feidípedes), o ateniense mais rápido, chamar os espartanos a pé, pois o rigor do terreno prejudicava o passo dos cavalos. Filípedes chegou a Esparta em dois dias. Detalhe: a distância era de 240 quilômetros. E tal esforço valeu a pena? Não, pois os espartanos estavam curtindo a festa religiosa de Ártemis e se negaram a pegar em armas em menos de uma semana. Outra traição amalucada… Ao corredor não restou saída a não ser correr os 240 quilômetros de volta com a má notícia, e ainda engajar-se ao exercito de 10.000 homens que Atenas mandava à costa para defender sua dignidade e, sem saber, garantir o futuro da civilização ocidental. Nessa empreitada, Atenas contou apenas com uma ajuda inesperada: a cidade de Platéia mandou mil soldados, todo o seu exército. Ajuda na hora certa é sempre bem vinda…
 
O resto da história é conhecido: o pequeno, mas motivado exercito grego, usando a estratégica certa, logrou vencer os persas e colocá-los em retirada. E a Filípedes coube, por mérito e por talento, correr os 42 quilômetros de volta e acalmar as mulheres de Atenas com a notícia da vitória. “Vencemos, Atenas está livre” foram suas últimas palavras, antes da última traição, da fadiga extrema, que lhe provocou a morte, ainda que gloriosa.
 
Não fosse a vitória grega na batalha de Maratona, o mundo não seria hoje o que é, pois o despotismo do imperador oriental teria escrito uma nova história para toda a humanidade. A Grécia, tendo Atenas como exemplo de respeito ao espírito livre, pôde continuar cultivando a filosofia, a democracia, as artes e as ciências, o que marcou o início do mundo ocidente livre, composto especialmente pela Europa, com todos seus sobressaltos, e pela a América com todas suas aventuras.
 
E a competição do dia a dia?
 
Em seu conceito clássico, competir é “buscar a satisfação de seus próprios interesses, independentemente do impacto disso sobre as outras partes em conflito”. Partindo dessa definição, podemos concluir que o escocês Cornelius nada mais fez do que competir com o brasileiro Vanderlei mesmo sem fazer parte da corrida. O que houve foi um conflito de interesses, um choque entre pessoas que buscavam atingir metas distintas. E deu no que deu.
 
E dentro das empresas, pode acontecer coisa parecida? Às vezes sim, felizmente como casos isolados. Empresas com administrações modernas usam expedientes de colaboração, como atrelar os bônus ao resultado geral da organização, entre outras práticas. Entretanto ainda existem empresas que estimulam a concorrência entre seus executivos, pois partem do princípio que assim eles buscam melhorar e se aprimorar, visando não apenas produzir mais e melhor que o outro, mas também merecer os bônus e prêmios. A competição que deveria ser travada no campo de batalha do mercado acaba transferida para dentro da empresa. Solo fértil para os Cornelius de plantão.
 
O que fazer diante de rasteiras inesperadas? Levantar a guarda e preparar o ataque, considerando que ele é a melhor defesa? Desistir e tomar o caminho de casa procurando um colo de mãe? Não mesmo: pesquisas muito sérias têm demonstrado que, nas empresas, o altruísmo ainda ganha do egoísmo, e ainda que este traço de personalidade jamais abandone o ser humano, ele não é a regra, mas a exceção. O egoísmo do irlandês reside no fato de que seu objetivo individual se opunha ao objetivo coletivo, do brasileiro e de todos os que desejavam o mesmo: ver enaltecidos os ideais olímpicos da superação humana.
 
Acredite então que sempre vai haver alguém rápido como Filípedes ou solidário como Kossivas colaborando com pessoas que, como Vanderlei, não desistem. E são estas que chegam ao final sorrindo como se nada tivesse acontecido, dando uma lição de vida aos tiranos e aos amalucados que sempre existiram e sempre existirão.
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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