Tempo, inteligência e coragem

O tema daquele encontro era avaliar as alternativas para sobreviver da melhor maneira possível à fase da economia em queda. Liderança e gestão em tempos difíceis era o título do evento, organizado para reunir durante dois dias os principais gestores da empresa.
Gestão de crises não chega a ser um assunto desesperador para executivos bem formados, com noções claras de estratégia e experiência em driblar os sustos do mercado, da economia e da política. Por definição, crise tem começo, meio e fim, e as empresas que conseguem passar pela fase ruim sem comprometer a estrutura e, principalmente, sem demitir funcionários, sairá fortalecida e em vantagem competitiva.
Não é pequeno o número de pensadores da gestão, escolas de negócios e grandes consultorias no mundo inteiro, que dedicaram tempo e capacidade para pesquisar as crises e apresentar modelos de gestão que podem ser adaptados à realidade de cada lugar e cada tempo. Naquele dia estávamos nos dedicando a avaliar alguns desses modelos com a finalidade de criar um próprio bem direcionado. Falávamos sobre revisão de processos, contenção de custos, novas abordagens comerciais, estímulos à inovação, postura das lideranças para passar confiança aos times. Coisas que todas as empresas devem estar fazendo nesse momento.
Já estávamos no final do primeiro dia quando, em um intervalo para o café, a Sílvia, uma das participantes mais interessadas e criativas do evento me procurou e foi direto ao ponto:
– Sabe, em situações difíceis, além de usar o conhecimento e a criatividade, também precisamos de uma injeção de ânimo, uma palavra que nos estimule.
– Concordo plenamente. Por isso estamos aqui falando sobre o papel dos líderes, que devem atuar como inspiradores de suas equipes.
– Então veja isto – disse ela, me emprestando seu smartphone, que tinha um vídeo pronto para ser acionado. Os 75 segundos de duração do vídeo absorveram minha atenção e mudaram substancialmente a condução do workshop.
Tratava-se de uma entrevista de um líder. Sim, um líder que é fácil de seguir, e que não é da política, nem do mundo dos negócios, como era de se esperar em um ambiente corporativo. O líder em questão vestia roupa branca, trazia uma corrente com um crucifixo pendurado ao pescoço e, no rosto, um sorriso permanente. Era Francisco, o papa.
Sentado diante de um auditório solene, Francisco responde a perguntas das pessoas, sobre a vida, não sobre religião. De repente, no telão aparece um jovem que lhe faz um questionamento muito simples:
– O que o senhor faz quando está na situação em que tem que enfrentar um grande problema (daqueles que no primeiro momento parece que vão nos destruir)?
Como é de seu feitio, Francisco sorriu antes de falar, e quando falou, usou palavras simples, pausadas, como se quisesse acalmar uma pessoa nervosa (e quem não está nos dias turbulentos em que vivemos?).
– A primeira coisa a fazer é não se desesperar – disse ele, com naturalidade. É preciso ficar tranquilo, para depois buscar a maneira de vencer o problema, de superar a situação.
Até aqui – você pode estar pensando – ele foi simples demais, falou o óbvio, foi praticamente raso. Mas é preciso ver o filme até o final… Disse o óbvio sim, então parou breves segundos, baixou ligeiramente os olhos, e com a voz ainda mais calma, emendou:
– E se não é possível superar… suportar. Aguentar… Até que surja a possibilidade de superar.
Mais obviedades? Pode ser, mas sempre é bom lembrar que temos uma imensa tendência a desconsiderar e esquecer do óbvio, que é onde está a verdade, na maioria das vezes. Diante do problema, manter a calma, procurar resolver e, na impossibilidade, resistir, até poder resolver. Óbvio. Por que nos desesperamos e desistimos, então?
– Você não deve se assustar nunca, com as dificuldades. Nós somos sim capazes de superara a todas elas – emendou o papa, para então concluir de maneira brilhante seu raciocínio:
– Tudo o que precisamos são três coisas: tempo para compreender a situação, inteligência para buscar o melhor caminho, e coragem para seguir em frente.
Tempo, inteligência e coragem. Paciência, organização e atitude. Algo mais?
Quando voltamos à análise dos grandes pensadores de gestão, e à elaboração da melhor estratégia para aquele momento, eu não conseguia não encontrar paralelos entre eles e o papa. Quase todos falam sobre a importância do equilíbrio emocional das equipes de trabalho, sobre a manutenção do moral alto, da motivação, da necessidade dos líderes inspirarem as pessoas a darem o melhor de si, a manterem o olho posto no futuro, que será melhor que este momento de dificuldade e sofrimento pelo qual estamos passando, etc. etc. O que disse Francisco? “Primeiro, manter a calma, não se desesperar jamais…”.
Que mais orientam os bambas da administração? Que é imprescindível aprimorar a gestão, rever os processos, conter os custos, encontrar alternativas para vender mais, fidelizar o cliente, estabelecer parcerias, criar novas estratégias de ação. Como ele resumiu tudo isso? “Inteligência para encontrar o melhor caminho…”.  E, por último, é bom lembrar que não é suficiente apenas elaborar uma nova estratégia. É preciso agir, executar o planejado, colocar energia na ação, estar preparado para enfrentar o pior acreditando no melhor. É preciso, sim, “coragem para seguir em frente”, como disse Francisco, com a naturalidade de quem já precisou dela muitas vezes.
Como a vida parece fácil quando um sábio a descreve. Será que isso se deve apenas à sua capacidade de explicar, de simplificar a complexidade e de colocar as coisas em sua devida perspectiva? Ou será que essa capacidade serve para nos iludir, tentando pintar de rosa um quadro que na verdade é negro? Perspectiva correta ou ilusão passageira?
Refleti muito sobre essa dualidade, e acho que cheguei à minha conclusão. Ou minha escolha, talvez. Confesso que prefiro a primeira alternativa. À da simplificação inteligente, que significa, acima de tudo, colocar o mundo em ordem em minha cabeça e meu espírito, antes de partir para a ação e arrumar o que pode ser arrumado. E tudo pode ser consertado e melhorado, se você tiver calma para aceitar, inteligência para organizar e coragem para agir. Simples assim, disse Francisco, o papa, mesmo sabendo que, pode ser que isso não seja fácil.
 
Eugenio Mussak escreve todos os meses para Vida Simples, sempre procurando simplificar o que parece complicado.
 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *