Um por todos, todos por um

O valor da união e da confiança entre indivíduos diferentes é retratado com muito humor no filme A Era do Gelo – um divertido desenho animado que mostra que as diferenças entre as pessoas são inevitáveis e até necessárias porque, em geral, são complementares.
 
Os personagens, Manfred, Sid e Diego não podiam ser mais singulares, pois se tratava de um mamute, um bi¬cho-preguiça e um tigre dente-de-sabre. No começo, os três tinham destinos e interesses totalmente distintos, e nem sequer nutriam, entre si, algum tipo de apreço. Até que um milagroso fato aconteceu: ao encontrarem um filhote humano perdido, decidem devolvê-Io a sua tribo. A partir do momento em que o objetivo dos três passa a ser o mesmo, as diferenças, me~mo sem desaparecer, começam a ser toleradas e, às vezes, valorizadas pelas habilidades que as acompanham. Quando Manfred, o mamute, entrega o filhote aos cuidados de Sid, o preguiça, e salva Diego, o tigre, da morte certa, colocando em risco sua própria vida, ouve do companheiro a pergunta lógica: “Por que fez isso, se você podia ter morrido?” A resposta também é lógica: “Porque é isso que se faz quando se trabalha em time ¬cuidamos uns dos outros”.
 
O filme é um belo exemplo de como as pessoas podem viver melhor quando todos se interessam pelo bem-estar de cada um, e quando cada pessoa cola-bo¬ra para o bem comum. O individualis¬mo é marca registrada dos tempos mo¬dernos, mas é bom lembrar que desde a origem humana os grupos fazem parte de nossa sobrevivência, afinal “meu gru¬po me protege” e, em troca, “eu protejo meu grupo: É o que diz a famosa frase “um por todos e todos por um.
 
Ao contrário da maioria das frases populares, cuja origem se perde com o tempo, esta foi criada por um escritor ¬Alexandre Dumas, que viveu no século 19 e foi um dos mais prolíferos autores do modernismo francês. Deixou cerca de 1200 obras, sendo 300 livros publica¬dos. Entre estes, os dois mais famosos, curiosamente, tratam de aventuras humanas que se desenrolam de maneira totalmente diferente: Os Três Mosque¬teiros e O GJnde de Monte Cristo.
 
No primeiro, a força é tirada do con¬junto das pessoas envolvidas – no caso, o aspirante D Artagnan e os três mosque¬teiros do rei, Athos, Porthos e Aramis.
 
No segundo, o marinheiro Edmond Dantes resolve as coisas sozinho. Por isso, Os Três Mosqueteiros é uma história alegre e movimentada, enquanto O Conde é um romance soturno, tenso e triste. Enquanto os mosqueteiros mos¬tram que para combater a injustiça a união é a melhor arma, o conde vale-se do sentimento de vingança.
 
A origem literária…
 
DArtagnan era um jovem interio¬rano que veio a Paris com o sonho de transformar-se em um mosqueteiro, uma espécie de guarda real do rei Luiz XIII. Entretanto, o reino estava domina¬do pelo primeiro-ministro, o cardeal Richelieu, que criara sua própria guar¬da, com a qual os mosqueteiros viviam às turras. Na primeira escaramuça que D Artagnan travou contra a guarda do cardeal, em companhia dos três mos¬queteiros, desejoso de ser aceito como um igual, bradou a frase que daria força ao grupo e, de quebra, ao romance: “Um por todos e todos por um!” E seguiu na luta em que prevaleceu a união dos mosqueteiros sobre o núme¬ro superior de soldados de Richelieu.
 
Já no outro livro, Edmond Dantes é traído pelo melhor amigo, Fernand Mondego – seu rival no amor da jovem Mercedes -, é injustamente acusado de um crime e fica preso por 13 anos no Château DIf, um presídio isolado numa ilha. Sua oportunidade de fugir surge na figura de um colega de infortú¬nio, o abade Faria, que, ao perceber que estava morrendo, sugeriu a Edmond que se colocasse no lugar de seu corpo, sendo assim lançado ao mar. De quebra ainda deu ao herói o mapa de um imen¬so tesouro. Como mágica, ele se vê livre e milionário. A história tem elementos de traição e vingança, mas só se resolve através de um ato de altruísmo e solida¬riedade. E esses sentimentos são pouco explorados ao longo do romance.
 
Alexandre Dumas é apontado pelos críticos literários como um romancista que não criou personagens de grande densidade, nem tramas com ensina¬mentos capazes de elevar a condição humana. É, antes, visto como um bom comunicado r, que usava palavras fáceis e frases de efeito, que o tornaram rapidamente popular. Seus personagens são atormentados por problemas comezi¬nhos e saem das enrascadas por atos de valentia ou sorte. Os heróis sempre aca¬bam por ganhar a força de que precisam para atingir seus objetivos. No caso do injustiçado Edmond, um tesouro incal¬culável. No dos perseguidos mosquetei¬ros, a união inabalável do grupo.
 
…de união e confiança dessas duas histórias percebemos que a união e a confiança – os traços preponderantes na relação dos mosque¬teiros – têm o valor do ouro e dos dia¬mantes do conde de Monte Cristo.
 
Quando D Artagnan diz “um por to¬dos: está deixando clara a idéia de que o coletivo prevalece sobre o individual. Mas, quando completa com o “todos por um: lembra que o grupo nada mais é do que a soma dos indivíduos que se juntam para viver melhor.
 
O cimento que faz a união de um grupo é a confiança. “Confiar” deriva do latim confidere – ter fidelidade mú¬tua, bilateral. Tendemos a confiar nas pessoas que confiam em nós – assim há um vínculo que sustenta a relação.
 
Há ótimos exemplos de grupos e times em que há esse “cimento”. A sele¬ção brasileira de vôlei é um deles. Não é campeã do mundo e olímpica por acaso. Seu treinador, Bernardinho, é o primeiro a admitir: o Brasil não tem jogadores melhores que outros países competitivos. Mas tem um time me¬lhor. A consciência de que ou todos chegarão juntos ou nenhum chegará é muito forte. Para isso é necessário que cada um jogue como se o jogo depen¬desse só dele, mesmo sabendo que a vitória será de todos. E que confiem uns nos outros – porque construindo essa confiança constantemente, através dos exaustivos treinos e do convívio humano, as diferenças serão resolvidas e valores serão cOnstruídos.
 
Para tanto, uma grande sabedoria é perceber que a dualidade entre o indi¬vidual e o coletivo não precisa ser um peso. O objetivo de cada um é o seu desenvolvimento, e o que não lhe pode faltar é o entendimento de que este só acontecerá dentro do coletivo. Mas essa sabedoria depende da humildade, que é a consciência de nossa própria fra¬queza. Ser humilde significa disponibi¬lizar as forças aos outros e pedir a eles ajuda para suprir nossas fraquezas.
 
Somos, cada um de nós, anjos de uma asa só. Não conseguimos voar se não em dupla, pelo menos. No caso dos mosqueteiros, em duas duplas. Os três mosqueteiros na verdade eram quatro, mais uma sutileza de seu criador.
 
Finalmente o quarto mosquetei¬ro juntou-se ao grupo no dia 30 de novembro de 2002. Foi quando o go¬verno francês promoveu a remoção dos restos mortais de Alexandre Dumas para o Panteão de Paris, a fim de que ele repouse ao lado de três gigantes da literatura francesa que lá já estavam: Victor Hugo, Honoré de Balzac e Émile Zola. O caixão foi car¬regado por quatro soldados em uni¬forme de gala. Estava coberto por um pano azul, representando a capa de um mosqueteiro. Bordada no pano, em letras douradas, a principal con¬tribuição de sua imensa obra, forma¬da por seis palavras: “Um por todos, todos por um!”
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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