Uma coisa leva a outra

Lembro-me com clareza de uma aventura adolescente. Em companhia de alguns amigos, fui escalar o pico do Marumbi, na serra do Mar. Já estávamos no caminho da descida quando um dos garotos, justamente o que transportava a mochila dos mantimentos, escorregou e desceu deslizando alguns metros sobre as folhas molhadas da trilha no meio da floresta.
 
Por mais que tentássemos, não conseguimos encontrar a mochila, que deve ter caído em alguma grota oculta. De repente, ficamos sem comida e ainda tínhamos uma noite pela frente. Nos reunimos para encontrar uma solução, quando alguém disse “precisamos procurar frutas silvestres”. “Não há frutas silvestres por aqui, mas podemos encontrar palmito”, argumentou o mais experiente. A idéia era boa, mas não tínhamos como cozinhar, então outro lembrou que “o miolo do palmito é macio e pode ser comido cru”. Já era alguma coisa.
 
O mais ágil, então, se prontificou. “Vou subir naquela árvore para tentar enxergar um pé de palmito.” “Aproveite para ver se não tem algum acampamento por perto”, disse o mais comodista. E não é que tinha? Um grupo de escoteiros veteranos estava acampado ali perto, e meu amigo viu a bandeira deles. Fomos bem recebidos e tivemos uma ótima refeição antes de dormir.
 
Quando penso nesse episódio não posso deixar de lembrar a seqüência de soluções encadeadas que surgiram em pouco tempo, em função de uma necessidade. A idéia de procurar frutas silvestres detonou uma saraivada de outras idéias, todas aproveitáveis. Uma coisa acabou puxando outras. E nos puxaram daquela situação.
 
Pensamentos em cadeia
 
Consta que o volume de informações contidas em uma edição de domingo do The New York Times é maior do que o conhecimento utilizado pela humanidade durante todo o século 17. Vivemos a expansão do conhecimento e da tecnologia, onde novas idéias surgem a cada dia, como provenientes de um manancial infinito. Mesmo assim, a todo instante ouvimos alguém dizer: “precisamos ter novas idéias”.
 
Esse apetite insaciável por idéias deriva de uma corrida travada entre as novas soluções e os novos problemas. Sempre foi assim, só que agora é mais rápido. A busca por soluções para atender às necessidades e aos desejos do ser humano é proporcional ao crescimento dessas mesmas necessidades e desejos. O mundo não pode parar, e ele é movido a idéias, que viram projetos, que criam soluções, que constroem novidades.
 
Pensar é ter idéias. Quando pensamos em equipe, melhor ainda, pois a criatividade como prática coletiva é muito mais eficiente. Pensar, em latim, é cogitare. Traduzida etimologicamente, essa palavra quer dizer agitar junto. Quando colocamos vários pensamentos nossos, ou pensamentos de várias pessoas, em um liquidificador imaginário e os agitamos bem, estamos pensando juntos, tendo idéias.
 
Equipes de pesquisadores, cientistas, jornalistas, publicitários, artistas, costumam reunir-se para “pensar juntos”, utilizando o conceito da criatividade coletiva, uma expressão que, olhada de perto, nada mais é que a constatação de que uma idéia puxa a outra. Também fazemos isso sozinhos, quando conseguimos focar em um determinado problema que exige solução imediata. Curiosamente, começamos por imaginar soluções mirabolantes e vamos encadeando uma idéia na outra, até que a mais simples se revela como a mais factível e apropriada. Depois ficamos indignados porque não pensamos primeiro naquela solução. É que idéias são assim, formam carreirinha.
 
Onde nascem as idéias
 
Platão se referia às idéias como entidades perfeitas, imutáveis e preexistentes, habitantes do Mundo das Formas. Ele acreditava que todos nós vivíamos naquele mundo antes de nascermos para este, que ele chamava de Mundo dos Sentidos. De acordo com sua teoria, as idéias que temos neste mundo não passam de recordações do outro mundo em que já vivemos. Aristóteles, mesmo sendo seu discípulo, discordou do mestre e afirmou que as idéias passam pelos sentidos antes de chegarem ao pensamento, sendo, em outras palavras, alimentadas pela observação do mundo ao nosso redor.
 
Como se vê, esse assunto é antigo. Segundo John Locke, nós compartilhamos com os animais o fato de termos sentidos, mas diferimos deles porque somos capazes de refletir sobre o que sentimos. Nasceríamos desprovidos de idéias, que seriam construídas a partir dos impulsos percebidos pelos sentidos. Locke dizia que nascemos como uma tábula rasa, uma folha em branco a ser preenchida ao longo de nossas vidas, concordando com Aristóteles.
 
Já René Descartes se referia a três tipos de idéias: as inatas, que teriam nascido conosco, originárias do espírito, como a consciência de si mesmo e a noção de Deus; as idéias adventícias, que são as que passam pelos sentidos e dependem da observação do mundo; e as idéias factícias, as elaboradas a partir de outras idéias, sendo essa a maior fonte das idéias do homem desde que ele começou a se comunicar e a compartilhar seus pensamentos.
 
Hoje, de acordo com a neurociência, a percepção que temos do mundo através dos sentidos é encaminhada para centros nervosos, ativando uma imensa malha de neurônios. Nessa rede neuronal, chamada córtex cerebral – a massa cinzenta –, as informações serão armazenadas em forma de símbolos representados por moléculas. E estas serão ativadas por sensações relacionadas.
 
É por isso que, segundo os neurocientistas, pensamos em um antigo amor quando escutamos “aquela música”, ou lembramos que não pagamos a conta da luz ao vermos uma propaganda da companhia de eletricidade, ou nos recordamos da infância quando comemos pé-de-moleque. É como se alguém apertasse um botão que despertasse a memória e fizesse surgir a idéia. De fato, as idéias estão ligadas entre si de maneira tão forte que o estímulo que gerou outro é instantaneamente esquecido porque o novo é mais forte, dando-nos a impressão de que já começamos por ele. Idéias são ações neurológicas poderosas, conectadas entre si e dotadas da propriedade de gerar imensos contextos de pensamento a partir de uma pequena gota de lembrança ou de provocação.
 
Tempestade de idéias
 
O professor Pardal, o personagem inventor de Walt Disney, usava um chapéu especial quando precisava ter idéias geniais – o “chapéu pensador”. Esse chapéu era uma espécie de casinha, onde três passarinhos piavam o tempo todo, como se estivessem “trocando idéias”.
 
E não foi só ele. Durante o tempo em que Curitiba, a moderna capital do Paraná, passou por grandes mudanças urbanísticas, o prefeito costumava reunir-se com sua equipe em uma bela construção de madeira e vidro localizada dentro da principal área verde da cidade, o parque Barigui. Essa casa foi apelidada de “chapéu pensador”, porque ali, esperava-se, deveriam nascer idéias novas e geniais.
 
Nas empresas ou grupos de trabalho, é comum um exercício de criatividade coletiva chamado brainstorming, que literalmente significa “tempestade cerebral”, mas quer dizer “tempestade de idéias”. Trata-se de uma técnica desenvolvida ainda na década de 1950 pelo publicitário norte-americano Alex Osborn. Inicialmente, o brainstorming era aplicado em ambientes de propaganda e marketing, mas com o tempo tornou-se popular em outras áreas, e passou a entrar em cena sempre que há necessidade de soluções criativas para alguma dificuldade ou para algum projeto novo.
 
A finalidade do brainstorming é estimular a liberação das idéias relativas a um tema qualquer, iniciando pelas mais ridículas e aparentemente desconexas e impossíveis. É incrível como isso liberta as pessoas do medo da ridicularização e promove um clima em que idéias vão sendo construídas, aperfeiçoadas e validadas. Uma puxando a outra.
 
Sem superegoApesar de o pensamento ser um fenômeno aparentemente livre, pois ocorre dentro de um domínio pessoal, sem críticas, fiscalizações ou patrulhamentos de outras pessoas, o que acontece na verdade é um espetacular sistema de autocensura construído ao longo de nossas vidas. Segundo Freud, enquanto o id, regido pelo prazer, busca a liberdade, o superego o proíbe e o aprisiona e o ego tenta a conciliação, movido pelo compromisso com a realidade.
 
Criatividade é liberdade de pensamento. E libertação pressupõe a ruptura das amarras, das algemas mentais, para as quais temos a chave – mas não sabemos disso.
 
Uma proposta excelente é, de novo, o exercício do brainstorming, mas não o realizado em equipe, e sim o individual, empreendido entre as três partes de nossa mente, com a finalidade de promover um clima interno em que a criatividade inconsciente do id seja liberada das amarras do superego.
 
Walt Disney dizia que ele era na verdade três pessoas: um sonhador, um crítico e um realista (id, superego e ego), e costumava fazer um brainstorming pessoal quando estava diante de um projeto novo. Ele chegou ao requinte de ter três gabinetes de trabalho, um para cada Walt, e dizem que até assumia comportamentos e posturas físicas diferentes em um desses ambientes.
 
Cada um dos personagens incorporados por Walt tinha seus próprios métodos e características. O sonhador era totalmente livre e espontâneo. O realista era organizado, metódico e analítico, e levava em conta recursos e limitações da realidade. Para o sonhador e o realista, era importante ter novas idéias, mas o mesmo não ocorria para o crítico, cujo enfoque era a qualidade – e em geral ele não ficava satisfeito com nada menos do que a perfeição. Walt Disney foi um dos homens que ajudaram a mudar espetacularmente o mundo no século 20. E tudo começou com um rabisco de um rato –uma idéia boba. Mas, como uma idéia puxa a outra…
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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