Uma visão histórica do empreendedorismo

A história da humanidade registra somente os atos de empreendedorismo. O que não se enquadra nessa categoria, ou é registrado apenas pela curiosidade (história factual) ou é simplesmente esquecido. Descobertas, conquistas e invenções não são fatos casuais, mas resultados de visões, sonhos, planejamentos e determinismos sempre seguidos de provações, privações e sofrimentos, antes da chegada da glória e do reconhecimento.
 
O Brasil tem quinhentos anos de construção quase sempre casuística, com imenso desrespeito com o planejamento a longo prazo e total desrespeito com as gerações futuras, e tem sido assim desde a colônia. Mas, curiosamente, se a colonização do Brasil foi espoliativa, pois o empreendimento não era a construção de uma nação, e sim o enriquecimento de Portugal, o seu descobrimento foi um ato de empreendedorismo.
 
Portugal dos séculos XV e XVI ocupou um espaço importantíssimo no mundo, em função de suas ações marítimas. A Escola de Sagres, empreendimento do Infante D. Henrique, homem rígido, disciplinado e visionário, deu aos portugueses um lugar indiscutível na história, através das contribuições para a ciência náutica. A construção de embarcações, inclusive da ágil caravela, dotada de velas latinas, o que conferia grande agilidade ao barco, foi apenas um dos seus feitos. Cartas náuticas, instrumentos de navegação e, principalmente, formação de navegadores, entre eles Cabral, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães.
 
A abertura dos mares aos portugueses e também ao mundo, mudando o rumo da história, foi um espetacular ato de empreendedorismo, e pode ser aceito como uma das características do período em que aconteceram: o renascimento. Após a hibernação imposta pelo pensamento castrador da idade média, o homem passa a ter valor novamente, e demonstra isso através de um fantástico movimento humanista, manifesto em três setores: nas artes, especialmente a de Michelangelo, de Leonardo Da Vinci e de Rafael, que colocam o homem novamente no centro das atenções, em contraste com a arte medieval, totalmente sacra ou figurativa dos nobres e do clero. Basta que lembremos da imagem impressionante de Adão no teto da capela Sistina, exuberante e desafiador em sua nudez, recebendo a vida através do toque de Deus, que faz o homem à sua imagem e semelhança, ou seja, permite que sejamos, nós mesmos, deuses como Ele.
 
Também pelas ciências, em que Copérnico, Kepler e Galileu enfrentam até a inquisição para mostrar suas idéias, pois dizer que a terra gira em torno do sol é quebrar um paradigma perigoso, após séculos de geocentrismo, que representava, em síntese, o teocentrismo preconizado pela autoridade religiosa. Descrever um sistema heliocêntrico é o mesmo que discutir com Deus, e isso é intolerável pelo poder católico. Tempos difíceis para quem usava a cabeça para pensar!
 
E, claro, pelo empreendedorismo, marcado pela busca de soluções não bélicas, ou pelo menos pouco bélicas para as questões econômicas emergentes, como por exemplo, a tomada de Constantinopla por Mahome II, e a conseqüente interrupção do caminho terrestre para as Índias. Sem Constantinopla (atual Istambul) não havia mais como ir ao Oriente, e sem ele perdia-se o acesso às especiarias (pimenta, cravo, nós moscada) necessárias à preservação da carne. Sem isso, a economia de Portugal e da Europa corria sério risco de falência. A única solução seria a busca de um caminho pelo mar. Empreendedorismo da melhor qualidade, ou fracasso total. E assim foi feito. Bartolomeu Dias desceu pela costa da África, dobrou o Cabo das Tormentas (depois Cabo da Boa Esperança) e viu que era possível chegar ao Oriente. Voltou, mas deixou o caminho pavimentado.
 
Na seqüência, uma das viagens mais importantes, a de Vasco da Gama, que chegou lá, criou alguma confusão em Calicute, mas escreveu uma pagina importante na história. Essa viagem pode ser interpretada como um empreendimento completo. Tem todas as características e emoções de uma grande ação, incluindo os sucessos e insucessos, as virtudes e os defeitos, os méritos e as falhas.
 
Tanto assim foi, que essa viagem foi relatada em um poema de Camões, e que se tornou sua obra mais famosa: Os Lusíadas. Composto por dez cantos, em estrofes de oito decassílabos, o poema tem um total de 8.816 versos, e se constitui em uma visão abrangente do humanismo renascentista, ao contar, através da poesia essa viagem, que representa a expansão marítima de Portugal, a mudança dos rumos da própria humanidade, e um exemplo espetacular de empreendedorismo.
 
Logo na primeira estrofe, diz Camões:
 
As Armas e os barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia e força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram.
 
Só neste primeiro verso, de um total de quase nove mil, já encontramos a visão de empreendedores dos portugueses da época. A responsabilidade e o empowerment que a esquadra (armas e barões assinalados) recebeu, a certeza de ultrapassar limites (passar além da Taprobana) e de fazer o que ainda não havia sido feito (por mares nunca de antes navegados), a existência de dificuldades de todo tipo (perigos e guerras esforçados), a confiança na superação pessoal (mais do que prometia a força humana), a capacidade de conviver com novas culturas (entre gente remota ), e a segurança de atingir os objetivos pré-definidos (edificaram novo Reino).
 
Limites a serem quebrados, enfrentar situações novas, assumir responsabilidades, compor equipes responsáveis, ir além do que já se foi, enfrentar dificuldades, conviver com diferenças, construir o novo. Todas estas são qualidades do empreendedor. E no final da estrofe, Camões usa a palavra sublimaram, que significa que os navegantes elevaram à condição de sublime, tanto sua obra, a descoberta, quanto seu reino, Portugal, quanto a si mesmos, que passam a ser comparáveis a Deus, na capacidade de criar novos rumos e edificar novos reinos. Afinal, somos feitos à sua imagem e semelhança!
 
Texto publicado sob licença da revista Endeavor.
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