Utópico ou utopista?

A expressão “utopia” deriva do grego, e quer dizer de nenhum lugar, de parte alguma, lugar que não existe. Foi aplicada pela primeira vez por Thomas More, em 1516. Desde então utopia foi utilizada por um sem número de escritores, poetas, pensadores e políticos.
 
Para o filósofo, utopia é a descrição de uma sociedade ideal. A República, de Platão, talvez seja o melhor exemplo de um pensamento utópico. Para o poeta, uma utopia é como uma estrela que mostra um caminho a ser trilhado, e não, necessariamente alcançada. O importante é estar a caminho, e saber o destino.
 
Uma qualidade exclusiva da espécie humana, é a consciência de um amanhã. Devemos isso ao nosso cérebro temporal. Portanto tentar imaginar esse amanhã, ou melhor, propor a sua forma, é criar uma utopia. Um futuro idealizado. Ideal. Fazer um projeto, descrever um amanhã de acordo com nossas ambições, é exercer influência sobre a passagem do dia de hoje para o de amanhã. Ao contrário, abandonar-se à fatalidade, proceder como se o futuro estivesse já escrito, bastando espera-lo para vive-lo, é o que mais se aproxima da morte em vida.
 
Uma sociedade sem utopias não é verdadeiramente humana. Não conhece o tempo. Não tem pelo que lutar. E uma sociedade é o conjunto de seus membros. Há utopias coletivas, e utopias pessoais. Todas úteis.
 
Às vezes, no entanto, a utopia se torna reacionária. O proposto à classe operária do século XIX, vergonhosamente oprimida, era de uma total passividade, diante da expectativa da abertura das portas do paraíso àqueles que melhor suportassem os sofrimentos na terra. Pode?
 
Utopias à parte, vale ou não se utópico? Cuidado. Às vezes a passagem do substantivo para o adjetivo corrompe totalmente o sentido originalmente proposto. A utopia é carregada desse conceito de projeto realizável, em curso de ser realizado. É louvável ter utopias. Ser utópico, no entanto, parece ser quimérico, imaginário, sonhador de sonhos irrealizáveis. O modelo de igualdade entre os homens que se tentou alcançar com o modelo marxista/leninista foi totalmente utópico. A fraternidade entre os homens é uma bela utopia.
 
Nietzche considerava filósofo todo aquele que imagina o amanhã, e tenta imagina-lo da melhor maneira possível, ou seja, aquele que cultiva utopias. Aquele que recusa as coisas como são. Aquele que questiona, duvida, inventa, tenta, corre riscos, faz perguntas que incomodam pessoas.
 
Aquele que ousa criar o seu amanhã. Aceitar como seu algo que ainda não existe. E que se organiza, planeja, põe-se a trabalhar, para transformar pensamentos em realizações. Sonhos em felicidade. Buscando a energia necessária para essa metamorfose em seu sistema de crenças. Acreditando em seus objetivos. Em si mesmo. Em seus semelhantes. Em forças outras tantas. Esse é dono de seu destino.
 
Se ser utópico é ser irreal, talvez o melhor seja ser utopista. Ou seja, aquele que não é utópico, mas tem tantas utopias quantas conseguir criar.
 
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