Vida Virtual

Vamos começar com um choque de realidade. Primeiro: existe, sim, um mundo virtual criado e mantido pela rede mundial de computadores. Segundo: continuamos vivendo no mundo real, que tem cores e cheiros e que pode ser tocado. Terceiro: um não vive mais sem o outro.
 
O mundo virtual nos permite basicamente acessar informações e facilitar a comunicação. No entanto, a vida só se vive no real; o outro é acessório, complementar, apêndice inútil se não usado, nocivo se usado mal e maravilhoso se usado bem. Pois é, quando falamos sobre o mundo virtual, recentemente criado pela inteligência do ser humano, é importante notar que estamos sempre fazendo escolhas. Acompanhe algumas histórias.
 
Primeira: “Vanessa está preocupada com seu filho Leo, hoje com 14 anos. Acontece que o garoto chega da escola, joga a mochila em cima do sofá, os tênis ficam pelo corredor e, antes de afagar o cachorro, Leo liga o computador, onde fica pelo resto do dia. Ele está em casa fisicamente, mas sua atenção e suas emoções estão plugadas na internet, através da qual ele fala com os amigos (os mesmos com os quais na escola ele mal troca palavras), baixa músicas, pesquisa novidades e, principalmente, participa de jogos com garotos que ele não conhece. Até o cachorro está desistindo dele”.
 
Segunda: “Doutor Vicente é um médico que faz questão de se manter atualizado. Sempre participa do encontro anual de sua especialidade e, pelo menos uma vez a cada três anos, viaja ao exterior para participar de congressos internacionais, visitar clínicas, comprar livros e conhecer as novidades da indústria. Recentemente algo novo aconteceu na vida do médico. Leu um artigo de um cirurgião americano que havia desenvolvido uma técnica para retirar amídalas usando um novo tipo de instrumento. Imediatamente passou um e-mail para o colega. Algumas horas depois tinha a resposta, com orientações e o projeto detalhado do instrumento. Vicente entregou o projeto para um serralheiro artesanal, que o reproduziu. Em uma semana ele estava fazendo o mesmo tipo de cirurgia de seu colega americano”
 
São duas histórias atuais que são totalmente diferentes no fim. O garoto está se transformando em presa voluntária de um mundo que o consome e o afasta da essência humana, das relações interpessoais, formadas por olhares, palavras, toques, amores, raivas, alegrias, ansiedades. E que têm, acima de tudo, vida. Leo pertence à geração Y, conhecida por ser a única, até agora, que tem o que ensinar a seus pais. Eles nasceram com o mouse na mão, e não conseguem entender o mundo sem o computador e a internet. Já o médico usou o mundo virtual para melhorar o mundo real. A fantástica disponibilização de conhecimentos na rede é a parte lustrosa deste admirável mundo novo. Alexandre, o Grande, mandou construir em Alexandria, cidade fundada por ele no Egito, uma biblioteca que contivesse todo o conhecimento do mundo. O sonho de Alexandre se realizou. Ele se chama internet.
 
Mundo potencial
 
No mundo contemporâneo, tecnológico, chamamos o espaço que não é real, mas que a gente sabe que existe, de “mundo virtual”. Um mundo transitório, onde ficamos por algum tempo, enquanto procuramos os elementos que serão utilizados na vida prática, real. Quando invertemos essa relação, ficamos doentes. E a patologia está em não perceber essa relação e passar a viver mais lá do que cá.
 
O fenômeno mais próximo de um mundo virtual já criado é o jogo Second Life, em que jogadores conectados em rede vivem literalmente uma segunda vida. Nele é possível criar uma personalidade, ter uma profissão, bater papo com outros jogadores plugados, fazer compras, ir a shows, construir casas. Os jogadores interagem em lugares variados, que parecem o mundo real: há bares, restaurantes, praias, boates e réplicas de algumas cidades. Essa vida de faz-deconta não faz mal, é até divertida e favorece a criatividade – desde que não roube de maneira exacerbada o tempo da vida real.
 
O jornalista Ethevaldo Siqueira é um especialista em tecnologia que se dedica a estudar esse tema. É dele o ótimo livro 2015 – Como Viveremos (Saraiva). Em um artigo recente ele escreveu sobre uma dúvida que atinge muitas pessoas: afinal, a virtualização é prejudicial ou não?
 
A conclusão é que não haverá ameaça de substituição de um mundo pelo outro, a não ser que a gente permita que isso aconteça. O mundo virtual surgiu como algo mais, como um acréscimo, fruto da evolução natural da humanidade, que tem na tecnologia seu mais espetacular avanço. Como evoluímos mais na tecnologia que no humanismo, esse descompasso cria desconforto e desconfiança.
 
O cientista inglês do século 19 Thomas Huxley, grande incentivador de Darwin, disse certa vez: “O mundo é um tabuleiro de xadrez, as peças são os Fenômenos da Natureza e as regras são as Leis do Universo. Estamos jogando, e o jogador do outro lado está oculto dentro de nós”. Bela metáfora. Jogamos contra nosso interior e só podemos, portanto, ser vencidos por nós mesmos. A escolha sempre será o grande momento da verdade na vida humana.
 
É possível que, com esses pensamentos, sir Thomas Huxley tenha inspirado o neto Aldous a escrever Admirável Mundo Novo, o livro que alerta para o surgimento de novas realidades, conseqüência da interação do homem com suas invenções. Pois o mundo virtual nasceu dessa relação de amor, cercada de sentimento de paixão, posse, dominação, insaciabilidade. Nada a fazer, a não ser acolhê-lo e educá-lo.
 
Há outras obras no mesmo caminho. O físico Michio Kaku, do City College de Nova York, em sua obra mais recente, chamada Visões do Futuro, com sua autoridade de cientista, e não de ficcionista, explica que o século 21 será profundamente influenciado por três revoluções científicas que começaram no século passado: a física quântica, a biologia genética e a engenharia da computação. O encontro dessas três torrentes da inteligência humana está criando uma nova visão do mundo, do homem, do futuro e da realidade.
 
Sobre a informática, Kaku explica suas três fases. Na primeira, havia poucos computadores para muitas pessoas. Eles eram tão caros que uma divisão de cientistas e engenheiros era obrigada a partilhar de um mesmo mainframe (um grande computador de antigamente). As máquinas eram tão caras e escassas que o homem se aproximava de uma delas como um grego antigo entrava em um oráculo. Eu mesmo vivi essa fase. Quando fiz um curso na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, tirei uma foto na frente da central de informática do campus e mandei para os amigos no Brasil, com a legenda “Neste prédio está instalado um computador, acreditem”. Eu me sentia no futuro, e isso foi na década de 1970.
 
A segunda fase foi a do PC, o computador pessoal, em que, em uma comunidade, pode haver uma relação computador/homem de um para um. Nessa fase o computador passou a ser considerado um eletrodoméstico, vendido em lojas de departamentos e supermercados. Mas ela já está ultrapassada, estamos na terceira, mesmo que você não tenha percebido. Sua característica é a inversão numérica: já há mais computadores que pessoas. Quando você está em seu carro, por exemplo, é possível que você esteja cercado por processadores – que estão no motor, na injeção eletrônica, na transmissão e até no sistema de som –, cada um fazendo seu trabalho de maneira autônoma, porém interagindo em uma rede virtual que sustenta seu conforto e sua segurança. Todos muito reais.
 
Em um dos primeiros artigos que escrevi para a VIDA SIMPLES falando sobre o excesso de tecnologia que nos cerca (e que só aumentou), propus uma adaptação das três leis da robótica de Isaac Asimov que, se observadas, podem facilitar bastante nosso convívio com a modernidade representada pela informática, pelo computador e, agora, pela vida virtual. Vale a pena repeti-las aqui:
 
• 1ª lei: O computador deve preservar a integridade e a supremacia do homem
 
• 2ª lei: O computador deve servir ao homem desde que isso não afete a primeira lei
 
• 3ª lei: O computador deve preservar-se e evoluir, desde que isso não afete as duas primeiras leis
 
Uma proposta
 
Podemos aplicar essas leis para a relação entre as vidas real e virtual, concluindo que a virtual deve evoluir e servir ao homem, mas não pode ameaçá-lo. Mas, convenhamos, não é a vida virtual que ameaça a real. Somos nós que a usamos mal. Então vamos parar com isso.
 
Temos que começar concordando sobre as duas questões fundamentais: a de que a vida virtual existe – e negála seria como negar a ação da gravidade; e a de que a vida virtual foi criada para dar mais qualidade à vida real, e não para substituí-la. A história do futuro é emocionante. Analise o texto a seguir.
 
“As outras histórias contam as coisas passadas; esta promete as que estão por vir. As outras trazem à memória aqueles sucessos públicos que o mundo viu; esta intenta manifestar ao mundo aqueles segredos ocultos e escuríssimos que não chegam a penetrar o entendimento. A ciência dos futuros – disse Platão – é a que distingue os deuses dos homens; e daqui lhes veio, sem dúvida, aos homens, aquele antiqüíssimo apetite de serem como deuses”.
 
As palavras acima não são de nenhum cientista moderno como Michio Kaku, nem de um jornalista antenado como Ethevaldo Siqueira, muito menos de um ficcionista cientifico como Isaac Asimov. São de um religioso jesuíta, o padre Antonio Vieira, e elas abrem seu livro História do Futuro, que foi escrito em 1649. Pois é. A vontade de brincarmos de deuses nos levou a criar um novo mundo, o virtual. O único perigo é acreditarmos na brincadeira.
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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