Vivendo por uma causa

Os alunos da Escola Municipal estavam excitados. Naquele dia não  teriam aula, ou pelo menos, eles achavam que não teriam. Seria mesmo difícil convencer os meninos e meninas do ensino fundamental que um passeio na praia em companhia dos professores e daquele simpático visitante seria uma aula. Mas era. E que aula.

 

Em duas horas de alegre caminhada os jovens participaram de uma espécie de gincana em que ganharia mais pontos a equipe que coletasse mais garrafas plásticas e outros tipos de lixo que costuma se acumular nas praias brasileiras depois de um final de semana. O resultado foi impressionante: dezenas de garrafas de plástico e de vidro, latinhas de cerveja e refrigerante, pedaços de papel, isopor e até alguns velhos sapatos e sandálias abandonados foram recolhidos pelas crianças que, ao mesmo tempo em que limpavam a praia recebiam uma belíssima aula prática de sustentabilidade e de espírito cívico.

 

– Vocês sabiam que na semana passada fizemos uma cirurgia para salvar uma tartaruga engasgada com um plástico e encontramos mais de vinte pedaços de material não degradável no estomago da coitadinha?

 

– E eu já contei pra vocês a história do golfinho que devolvia lixo para a praia com seu focinho? A gente o chamava de golfixeiro, o golfinho lixeiro – O instrutor continuou a encantar as crianças durante todo o passeio e só pôde se despedir porque prometeu voltar outro dia.

Cada criança, no final daquela pequena jornada tinha se transformado. Agora cada um era um ecologista em potencial e, mais, um educador ambiental que ensinaria outras pessoas a preservar a Natureza, a começar por seus pais, tios e irmãos mais velhos. É impressionante o poder multiplicador de uma atitude quando vem acompanhada pela imensa energia inocente de uma criança.

Esta é uma estória típica de uma Organização Não Governamental criada para ajudar a preservar a natureza. Em geral compostas por profissionais da área, como biólogos e engenheiros ambientais, mas engrossadas por voluntários preocupados com o destino do planeta, algumas não passam de boas intenções, mas outras são fundamentais para a educação da sociedade e para a vigilância sobre os governos.

 

O que encanta, nos ativistas sérios (porque há os que não passam de pirotécnicos) é seu comprometimento com a causa ambientalista. Eles são um exemplo da necessidade que temos de estar ligados a coisas que façam sentido, que nos façam sentir úteis, necessários e importantes.

 

Enquanto você lê este artigo estão acontecendo dois tipos de coisas no mundo: pessoas agindo sem nenhuma responsabilidade com o outro e gente cuidando de quem nem conhece; jovens depredando e jovens recuperando; gente sujando e gente limpando. Para compensar a irresponsabilidade de uma vida egoísta, há, felizmente, centenas de pessoas como aquele instrutor voluntário trabalhando para preservar a natureza, ensinando crianças, cuidando de animais, dando dignidade a mendigos.

 

São pessoas que trabalham em função de crenças, em nome de causas. Não há recompensa material que as pague, não é por isso que se dedicam ao que fazem. São movidos por ideais, alimentados por resultados consistentes e energizados pela certeza de que vale a pena dar parte de si para tornar o mundo melhor.

 

O que move essas pessoas? Por que algumas mudam seu comportamento radicalmente após terem levado uma vida alienada e indiferente?

Conheço um caso peculiar. Um pescador que durante anos exercia sua profissão sem a mínima preocupação com o ambiente e com o futuro. Segundo ele mesmo, era alienado e só se ocupava com o aqui e com o agora. Não acreditava que suas ações maléficas – como pescar com o uso de explosivos, que matam os peixes e, de quebra, todas as formas de vida em seu raio de ação, como corais, moluscos e filhotes de peixe sem valor comercial – tivesse algum efeito sobre o ecossistema que o alimentava.

 

Até que um fato aparentemente banal marcou sua vida e mudou seu destino. Sua filha pré-adolescente, a Janaina, examinando uma lagosta que o pai acabara de trazer para casa lhe perguntou o que eram aquelas bolinhas vermelhas que ela tinha na barriga.

– São ovos – respondeu o pai – cada bolinha dessas é uma lagostinha que ainda não nasceu.

 

– Então por que você a pescou? – indagou a pequena com ar de espanto – assim você impediu todas essas lagostinhas de nascer.

 

O choque e a decepção da filha provocaram uma revolução de valores na alma do pescador. Ele teve um insight, uma súbita iluminação interna que mostrou o erro de suas ações, a conseqüência de sua irresponsabilidade. Foi o suficiente para que o Zé Pescador – esse é seu nome – tomasse uma decisão que mudaria a sua vida e a de milhares de pessoas: deixaria de trabalhar com pesca e criaria uma instituição para estimular os pescadores a praticarem a pesca consciente.

 

Hoje, doze anos depois da história das lagostinhas, a PROMAR, criada por ele na ilha de Itaparica já tem seis sedes em praias e ilhas da costa baiana e uma em uma comunidade pesqueira do rio São Francisco. Apoiada por empresas-parceiras, que lhe garantem a subsistência, atua junto às comunidades pesqueiras, mas também com educação ambiental em escolas, orientação de turistas, monitoramento dos corais, dá consultoria para empresas e assistência aos governos. O Zé Pescador é outra pessoa em muitos sentidos. Ele encontrou sua causa.

 

Estive com ele recentemente, visitando a sede da PROMAR na ilha de Boipeba. Chegamos a Torrinhas de onde se toma o barco na noite de São João, dia 23 de junho. No Nordeste esta festa é comemorada intensamente. Praticamente cada família tem sua fogueira que rivaliza com a do vizinho em tamanho ou intensidade. Um concurso junino. Os homens estão sentados à porta das casas, a crianças correm e algumas brincam de pau-de-fogo, uma espécie de bastão que solta faíscas pela ponta. Os cachorros latem. Quase não se vê mulheres. Elas devem estar preparando os pratos que acompanharão a festa ao lado do fogo. Não imagino o que será. Talvez mungunzá ou tapioca.

 

Eu olho para a extensão do rio e só vejo escuridão. Pergunto se o piloto do barco conhece bem o caminho, e ele se limita a aumentar o tamanho do sorriso. O Zé, percebendo minha preocupação diz “Ele nasceu aqui. Faz esta viagem ate de olhos fechados”. Fico pensando que poderia ficar mesmo de olhos fechados, pois o escuro da noite é mesmo inescrutável. “Sentem atrás”, limita-se a dizer quando entramos cambaleando em sua voadora. “É mais confortável”. Nota-se que ele pensava na Lu e na Thais, que me acompanhavam. Um cavalheiro, o piloto-morcego.

 

Saímos. A lancha inclinou-se e ganhou velocidade instantaneamente. Ao mesmo tempo em que, claro, começou a chover. O Zé, magnânimo, abriu sua mochila, retirou uma jaqueta de nylon. “É melhor vocês se cobrirem” disse. Não precisou falar duas vezes. De repente nos vimos, eu e a Lu, cobertos precariamente por um pedaço de plástico frio que recebia as gotas de chuva como se fossem balas de borracha potencializadas pela velocidade da voadeira.

 

Abraçados, molhados, com frio, ríamos com o ridículo da situação. “Preferia estar no shopping?”, brinquei. “De maneira nenhuma”, respondeu rindo minha companheira de aventuras. Algo me dizia que esta estava apenas começando.

 

Eu tinha razão. Foram três dias excepcionais de convivência com o Zé Pescador e sua turma. O idealismo é contagiante entre aquelas pessoas, que são de todos os tipos. Há pescadores, surfistas, biólogos, oceanógrafos, estudantes. Vieram de vários lugares, alguns do sul, mas todos falam com o mesmo sotaque, o da língua da missão que defendem a causa ambiental do litoral baiano. O pescador abandonou a pesca, pelo menos a de peixes. Começou a pescar mentes e corações.

 

As pessoas precisam necessariamente estar ligadas a causas nobres para se sentirem completas?

 

A experiência na ilha paradisíaca direcionou meu pensamento para a questão do significado de nossas ações. Precisamos, sim, de causas. A vida vazia, sem objetivos, missões que exigem nosso melhor, não nos completa.

 

Essa é a razão porque milhões de pessoas dedicam parte de seu tempo e de sua energia a trabalhos voluntários, cuidando de pessoas desprotegidas, de mendigos, de animais abandonados, de doentes no hospital. Um estudo nos Estados Unidos calculou em muitos bilhões de dólares o que deveria ser pago para os voluntários naquele país se eles recebessem salários pelo que fazem.

Esse cálculo intrigou Peter Drucker, o grande guru da administração e da economia. Olhando mais de perto ele concluiu que as pessoas buscam os trabalhos voluntários para darem sentido para suas vidas. E se preocupou com o fato de que o trabalho delas não lhes dava esse sentimento de serem úteis e necessárias. Seu trabalho era desprovido de significado.

 

Mas não é necessário que seja assim. Nem todos podemos estar ligados diretamente a uma causa nobre como a do pescador, e nem é necessário que estejamos. Duas providencias simples podem resolver o vazio interior que algumas pessoas carregam: faça a sua parte, seja ético e correto em todos os lugares onde você freqüenta; e, não menos importante, perceba a causa que está ligada ao seu trabalho. Ele é maior do que uma simples tarefa, acredite.

 

Um vendedor de celulares é mais que um vendedor de celulares. É um aproximador de pessoas. Assim como um motorista de ônibus é um transportador de pessoas, um enfermeiro é um cuidador, um cabeleireiro é um embelezador e um guarda de transito é um organizador. Tarefas simples podem ter sabor de causas se forem observadas com um olhar ampliado, interessado e generoso. Vale a pena.

 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.
 
Visite o site da revista:
www.revistavidasimples.com.br