Você conhece seus limites?

Caro leitor, vou começar este texto com uma provocação.

Digamos que você esteja envolvido em algum projeto qualquer, no trabalho, no estudo, no esporte, na diversão ou nas relações humanas. Pergunto: você sempre está certo que deve continuar, ou sabe reconhecer quando chegou o momento de parar de fazer o que está fazendo? Quanto você pode exigir de você mesmo? Você sabe o que pode e o que não pode fazer? Afinal, você conhece seus limites?
Estou certo que você já pensou sobre isso, pois o limite humano é um dos grandes enigmas que nos perseguem desde sempre. Até onde podemos ir? Será que os limites estão fora ou dentro de cada um de nós? Você pode afirmar que são perguntas sem respostas; mas mesmo assim não consegue livrar-se delas, pois você é um ser em movimento, que deseja sentir-se vivo, realizar, construir, conquistar, evoluir, “testar seus limites”.
Um dos mais belos conceitos da matemática responde pelo nome de “limites”. Apesar da complexidade de sua definição formal, que não cabe neste texto, trata-se de uma idéia de bases simples, criada por Arquimedes em Siracusa, há mais de dois mil anos.
Faça o seguinte exercício: desenhe um quadrado em uma folha de papel. Ele tem quatro lados iguais, é claro. Se você aumentar o número de lados para oito, estará diante de um octógono. Dobrando o número, passando, portanto para dezesseis, terá criado um hexadecagono. Essas figuras chamam-se genericamente polígonos. E é claro que, à medida que você for aumentando o número de lados, estes estarão ficando cada vez menores.
Continuando nesse processo, chegará um momento em que cada lado da figura ficou tão pequeno que se confundirá com um ponto. Nesse momento, o polígono terá virado uma circunferência. O momento em que uma figura geométrica com “lados” transforma-se em outra com “pontos” (um polígono virando uma circunferência) é designado como o “limite”.
A beleza desse conceito reside no fato de que, ainda que não possa ser identificado na prática, pode ser demonstrado matematicamente. Sabemos que existe um limite para dobrarmos os lados, depois do qual, surgem os pontos. Que momento mágico é esse? Você pode imaginá-lo? Pode sim, e creia, cada um de nós cria essa imagem à sua maneira.
A vida também é assim. Há pessoas que não se acomodam em sua condição presente e continuam multiplicando seus vários lados indefinidamente, na tentativa de criar esferas capazes de rolar cada vez mais rápido. Outros, entretanto, interrompem muito cedo essa multiplicação, pois ela exige esforço, e continuam sendo quadrados tentando mover-se. Com pouca esperança e pouco alcance, é claro.
Eis o dilema: como transformar o limite em alcance, sem ser irresponsável ou incoerente? Conhecer os limites pessoais às vezes nos obriga a parar, mas parar não significa concordar com a interrupção, muito menos conformar-se com a derrota. Saber parar pode significar uma tomada de posição, cujo objetivo é a recuperação da força, ou o tempo necessário para que se construa a condição imprescindível ao passo seguinte. O cubo, antes de virar esfera precisa conscientizar-se que é um cubo, mas que não precisa sê-lo para sempre.
É claro que a superação exige energia pessoal, e muita. O polêmico, mas respeitadíssimo filósofo Gurdjieff descreve uma cena que representa um verdadeiro esforço na determinação do limite humano: imagine caminhar dois dias e duas noites sob neve forte, sem ter o que comer, e ao final chegar a uma cabana aquecida pelo fogo, banho quente, comida e bebida farta e, então… rodar nos calcanhares e voltar na escuridão, trilhando o mesmo caminho até o ponto de partida…
De acordo com Gurdjieff, o ser humano é dotado de dois acumuladores de energia. São eles que nos fornecem a fantástica energia da vida. Um esforço como o descrito acima, seria capaz de esgotar o primeiro acumulador, o que é muito grave, mas teria o mérito de disparar o segundo, necessário para garantir uma sobrevida, por assim dizer.
Não aconselho ninguém a fazer tal expedição na neve, e sim a começar a prestar atenção em seus dois acumuladores de energia. Todos nós, mortais comuns, já passamos por situações em que tudo parecia perdido e nós simplesmente não tínhamos mais forças para continuar. Foi quando ligamos o segundo acumulador e demos os passos finais, que nos levaram até onde queríamos chegar. E provavelmente o segredo para ligá-lo é acreditar que ele existe.
O limite humano é uma das maiores preocupações que o homem sempre carregou dentro de si. Não há pensador, antigo ou moderno, que não tenha abordado o tema. Desde Sócrates, com seu “conhece-se a ti mesmo”, que, ao estimular o autoconhecimento, esperava criar consciência dos limites pessoais, até Friedrich Nietzsche, que, em 1892 lançou o livro Assim Falava Zaratustra, abordando o tema da superação humana.
Nessa obra, Nietzsche reescreve as idéias de Zaratustra, também chamado Zoroastro, um profeta do século VI a.C., que teria escrito o código moral, político e religioso dos antigos persas, e que se referia ao fato de que os homens, em algumas circunstâncias deveriam se superar, ampliando seus limites, transformando-se em verdadeiros “super-homens”.
Nietzsche concordava com Zaratustra, mas dizia que essa capacidade quase ilimitada de ampliar limites não era coisa para qualquer um, e sim seria uma conquista de alguns poucos, “escolhidos” pelo destino. Dizia ele que a maioria das pessoas são comandadas pelos sentimentos de medo, rancor, superstições, ciúmes, inveja, o que as aprisiona a uma mentalidade e a um comportamento de escravos. Poucos seriam os eleitos pela natureza ou pela vida para ser Übermensch, a palavra alemã que significa algo como “um humano melhor” e que foi popularizada como “super-homem”.
A angústia humana diante de suas dificuldades rotineiras fez aparecer alguns personagens de ficção que funcionam como uma espécie de “imagem projetada” do homem comum. O Superman que conhecemos das revistas ou do cinema é apenas um dos super-heróis de plantão, criado em 1933, em plena grande depressão americana, por Jerry Siegel e Joe Shuster. Para resolver aquela crise, só mesmo um homem com super poderes. Parece então que o super homem de Zaratustra passa por Nietzsche e chega até Siegel e Shuster. Da Pérsia aos Estados Unidos com escala na Alemanha em um parágrafo, simbolizando o medo de chegar ao limite, e a esperança de poder ultrapassá-lo. Resta a certeza de que sempre podemos ser melhores do que somos, e que isso é uma conquista diária, e que não seremos salvos por nenhum super homem, apenas por nós mesmos!
Mas chega de tanta citação. Voltemos à vida prática, à vida como ela é, cheia de desafios, problemas, prazos, ansiedades, esperanças. Todos esses fenômenos, muito claros ou pouco perceptíveis, recheiam a vida de quem trabalha, paga contas, namora, estuda, cria filhos, monta empresas, ou seja, a vida de todos nós.
O limite do prazo, o limite da competência, o limite do saldo bancário, o limite da paciência serão, na verdade, projeções do limite interno de cada pessoa, o limite do humano? Há controvérsias, mas duas verdades são inquestionáveis – a primeira: o limite é individual; a segunda: o limite não é fixo.
O fato de sermos “indivíduos” nos torna singulares, únicos, com características absolutamente indissociáveis de nós mesmos. O que somos, incluindo aí os nossos limites, deriva da interação de nossa genética com o aprendizado acumulado ao longo de nossa vida. Não somos só biologia ou só sociologia. Somos ambos. O pensamento pertence à nossa condição humana, mas é aprimorado através do convívio social, da percepção do mundo com todas as suas belezas e suas mazelas.
Empurrar os limites significa aumentar o raio de ação. Significa ganhar mais espaço para viver e para criar vida ao nosso redor. Não é possível “não ter limites”, mas é possível trabalhar para que o limite obedeça à nossa vontade, ao nosso pensamento racional aliado às nossas melhores emoções, e não à tirania dos modelos absorvidos de fora para dentro de maneira cega e cordata. Aceitar que “não podemos” porque alguém acha isso, baseado em sua opinião a nosso respeito ou na projeção que ele faz de sua própria pessoa, de seus próprios limites, nos condena a uma vida “autômata” e não “autônoma”.
O limite é individual, é do indivíduo…é meu, e não da pessoa que me olha e “deduz” o que eu posso ou não posso fazer. No entanto há um pré-requisito: a maturidade. Conhecer seus limites significa conhecer-se em sua dimensão mais intima, o que requer maturidade, algumas vezes confundido com idade.
O limite não é fixo, e por isso mesmo, a grande vantagem de se conhecer o próprio limite não é o saber “até onde posso ir”, mas descobrir o que fazer para “ampliar o limite”, aumentando o potencial realizador. A verdade é que o limite é o mais móvel dos valores humanos. A única coisa que fazemos, quando trabalhamos em nosso desenvolvimento pessoal, através do estudo, da leitura, do trabalho, dos diálogos, da ginástica, é aumentar nossos limites.
Não há limites para quem sonha? Há sim: sua competência em transformar os sonhos em realidade. É nesse ponto que vamos encontrar a diferença entre as pessoas. E essa competência é desenvolvida especialmente através dos “diálogos internos”, aqueles em que nós fazemos as perguntas que nós mesmos responderemos. É claro que para tanto usamos também o farol de emite luz de fora, do mundo, das experiências da humanidade, e que serve para que possamos ver melhor nosso interior, nosso mundo íntimo.
Se você deseja transformar um quadrado em um círculo, será responsável por esse desejo e pelo esforço necessário para desenvolver a habilidade que lhe permitira chegar lá, aumentando os lados, até que virem pontos. Infinitos…
 
Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
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