Você contrataria o Lula?

Sempre que um país tem um novo governante, passa a viver um novo tempo. O Brasil do momento está se perguntando como será esse novo tempo, em que estará governado por um presidente tão diferente do anterior. Sai o neoliberal erudito e entra o trabalhista líder sindical. O posto ocupado pelo professor universitário passa para as mãos do operário sem estudo, por decisão da população. Se o Brasil fosse uma empresa, e a contratação do Diretor-Presidente estivesse em suas mãos, você o contrataria?
 
Uma das questões mais polêmicas atualmente é a da qualificação de Lula para ser presidente do Brasil. Por ser carismático, articulador, coerente, ter uma vida ilibada, dedicada à causa trabalhista, e ser grande conhecedor do Brasil e de seus problemas, Lula parece ser o homem certo, no momento certo. Mas e a questão da formação acadêmica? Como foi sua educação? Ostenta o diploma de torneiro-mecânico do SENAI, curso, aliás, muito bom, mas que não habilita ninguém a dirigir nada. Ou o estudo de repente deixou de ser importante, depois de tudo o que os nossos pais e os nossos professores sempre nos falaram?
 
Quando a formação, ou falta dela, de Lula inquieta, vale a pena que façamos algumas reflexões sobre o verdadeiro significado da educação, e de sua relação com a competência para dirigir ou realizar qualquer tipo de empreitada na vida.
 
Se formos beber na fonte, ainda que em copo plástico, das origens da educação, encontraremos que educar é a arte de ensinar a pensar. Entretanto, se analisarmos a educação como a que recebemos, encontramos que as escolas estão muito mais preocupadas com passar conteúdos, do que com desenvolver o pensamento.
 
A Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI da UNESCO, coordenada pelo educador Jacques Delors, definiu a nova educação como um conjunto de quatro aprenderes: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. O primeiro dos quatro aprenderes, refere-se a saberes codificados, ou seja, tudo aquilo que podemos encontrar nos livros, e que, em geral, é passado pelos professores nas salas de aula, nos ensinos fundamental, médio e superior. É habitual que as pessoas relacionem educação apenas com essa prática. Mas há mais.
 
O aprender a fazer está ligado com o desenvolvimento de habilidades e competências, sem as quais, o conhecer perde o sentido. O aprender a conviver refere-se ao desenvolvimento do espírito de sociabilização e da capacidade de comunicação, fundamentais, quando se percebe que atualmente tudo depende de equipes e parcerias. O aprender a ser está relacionado com o respeito à moral e à ética, o que complementa a formação de uma pessoa, pois sem esses valores estaríamos construindo um mundo de bárbaros. Estes três últimos aprenderes podem ser recebidos da escola, mas, com certeza, são tão ou mais desenvolvidos fora dela, considerando a escola como ela é atualmente, e o mundo plural em que vivemos.
 
Essa reflexão nos ajuda a entender alguns fatos intrigantes, como por exemplo, o fracasso pessoal e profissional de algumas pessoas estudadas, e o sucesso, às vezes espetacular, de pessoas que não estudaram, como é o caso do nosso Lula. A eleição de Luís Inácio Lula da Silva, um homem iletrado, para Presidente do Brasil, não significa a desimportância do estudo, e sim a importância das qualidades pessoais.
 
Às vezes surge uma pessoa à qual não escapa nada ou quase nada do que acontece no seu tempo. Um desses homens foi Aristóteles, na Grécia do Século IV a.C. Duas obras desse filósofo fazem referência à questão que estamos tratando: Ética a Nicômaco e Política. Na primeira, Aristóteles fala dos princípios da educação segundo seu ponto de vista, e na segunda a relação do homem com a sociedade, na qual a educação tem importante papel. Notamos uma profunda relação entre as duas obras. Segundo seus pensamentos o homem é um animal político, e também um animal que aprende.
 
Ser político é desenvolver a capacidade de viver em sociedade e também de colaborar para o bem estar e para o desenvolvimento dessa sociedade. Aqueles que possuem ou que desenvolvem essa qualidade de forma mais intensa estão autorizados a ocupar cargos de decisão ou de liderança dentro da comunidade a que pertencem. É o caso de um Presidente da República. E essa capacidade as demais pessoas da comunidade são capazes de aferir, o que nem sempre acontece de forma objetiva. E aí está a principal diferença entre contratar e eleger. Contratamos objetivamente e elegemos subjetivamente. Lula talvez não fosse contratado, mas foi eleito.
 
O filósofo coloca como importante a questão de que todo homem deve desenvolver as virtudes através das quais poderá participar da vida política de sua cidade (sociedade). Diz ele que quando nascemos, os costumes se apoderam de nós, e nos acompanham, vigilantes, por toda a vida. Os que os transgridem serão punidos, e os que os transcendem, estarão autorizados a falar em nome das pessoas. Estes serão os líderes. Diz ainda que tudo o que aprendemos deriva do ensino (akouontes) ou da experiência (ethizomenoi). Lula está no segundo grupo, e o fez com louvor.
 
O Brasil elegeu Lula porque percebeu nele um conjunto de vontades, que são a vontade de liderar, a vontade de beneficiar os outros e a vontade de se superar, e tudo isso acompanhado por um carisma pessoal que é dele por natureza. Esse conjunto de fatores foi mais forte que o currículo acadêmico que também era desejável, mas que não foi considerado o mais importante. O que ocorreu foi uma opção pela vontade. Não que seu oponente não a tivesse, mas Lula foi mais convincente.
 
Temos que ser justos com nossas percepções e com nossas esperanças. E é por isso que discutimos exaustivamente as qualidades daquele que desejamos que lidere este país para um destino melhor. É justo que consideremos importante uma formação global de nosso presidente, incluindo aí a formação acadêmica. É justo também que depositemos em nosso presidente todas as esperanças, pois ele fez por merecê-las.
 
Não estaríamos sendo justos se diminuíssemos o valor de Lula que chegou lá, afinal de contas, e talvez seu valor seja ainda maior por ter chegado aonde chegou apesar de tudo, incluindo nesse tudo o fato de não ter cursado uma faculdade. Mas também não estaríamos sendo justos se não reconhecêssemos que ele poderia ter construído uma vida acadêmica, sim, durante esses vinte anos em que se preparou para ser líder e chegar a Presidente da República. Ele é um exemplo para a juventude, mas seria ainda maior, se tivesse estudado.
 
Por mais que acusemos as escolas e faculdades de estarem preocupadas apenas em passar conteúdo, não podemos deixar de reconhecer que, ao mesmo tempo em que isso acontece, vamos treinando nosso cérebro para lidar com as complexidades. Aprendemos lógica através da matemática, linguagem através da língua portuguesa e do idioma estrangeiro. Aprendemos, sem saber, a lidar com a dedução de fatos e a com indução de idéias através do ensino das ciências. Isso tudo nos ajuda a lidar com a vida, mesmo que nunca mais utilizemos os saberes aprendidos diretamente. Esse é o valor agregado da escola. Por isso o estudo é importante.
 
Lula pode ser brilhante, e esse brilho é justificado por sua biografia ao mesmo que tempo que justifica essa mesma biografia. Imagino que teria passado também com brilho pela vida acadêmica. Aprendeu a conviver, a fazer e a ser. É suficiente, sim, para colocá-lo na História, mas isso será decisão dela!
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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