Você demitiria Lula?

Os argumentos que levariam os acionistas da Brasil S/A a mandar embora seu principal executivo
 
Logo após a eleição de 2002, escrevi o artigo Você Contrataria Lula?. Havia no país uma preocupação com a falta de preparo do novo presidente, pelo seu pouco estudo e pela falta de experiência executiva. Passados quase três anos, o tema volta a ser atual. Caro leitor, se o Brasil fosse uma empresa, Lula seria demitido? Provavelmente, você diria sim, pois está decepcionado. Mas, se tiver de justificar racionalmente a demissão do principal executivo da Brasil S/A, você precisará de argumentos lógicos. Então, vejamos.
 
Um CEO precisa fazer a empresa alcançar resultados, o que significa ter lucro e crescer. Para alcançar essas metas, três elementos são essenciais: (a) planejamento estratégico a partir de dados estatísticos confiáveis (forecast) e o sentimento pessoal do CEO sobre o futuro (foresight); (b) equipe competente e confiável; (c) a capacidade de representar a empresa perante o mercado, ciente de que sua imagem se confundirá com a da empresa.
 
ANALISE NUA E CRUA
 
Vejamos como se comportou o “CEO” Lula. Para começar, seu plano de governo teve acertos quanto ao forecast. Os indicadores macroeconômicos mostram que a economia segue no rumo certo. Numa análise 100% técnica, Lula teve o mérito de acolher a lógica proposta pela sua equipe econômica. Entretanto, seu foresight não funcionou. Lula criou o Fome Zero quando o principal problema nutricional dos pobres é a obesidade; colocou o boné do Sem-Terra, apoiando um movimento que se opõe ao maior responsável pelo nosso superávit, o agronegócio; iniciou uma política externa tentando liderar países marginais, e o fez sendo o porta-voz de críticas aos principais parceiros comerciais do Brasil. A contribuição de seu sentimento pessoal falhou e, quando foi desmentido pelas estatísticas, simplesmente as desautorizou.
 
Com relação à equipe, aqueles que demonstraram competência e compostura foram a exceção. Não é difícil avaliar o quanto de político houve nas indicações aos cargos importantes na administração federal. Na hora de “representar a empresa”, Lula criou um personagem caricato, capaz de pronunciamentos infelizes, inapropriados e desconexos. O pior são as mensagens “quase lógicas”. Quando diz que “a crise não vai atingir a economia porque o povo brasileiro não merece”, está usando duas premissas corretas, porém sem ligação entre elas. A crise não atinge a economia porque esta tem mecanismos próprios de sustentação, e não porque o povo não merece sofrer. Assim dito, no calor de um discurso, a frase serve apenas para arrancar aplausos da platéia.
 
Ainda dentro do capítulo da representatividade, no primeiro artigo, escrevi: “Por ser carismático, articulador, coerente, ter uma vida ilibada, dedicada à causa trabalhista, e ser grande conhecedor do Brasil e de seus problemas, Lula parece ser o homem certo, no momento certo”. Agora essa frase carece de sentido. Ao se omitir diante de um sistema corrupto, ele perdeu a coerência, a pureza e a representatividade da causa trabalhista.
 
Naquele artigo, descrevi a função essencial da educação (utilizar o conhecimento como estímulo ao pensamento, gerando discernimento, lógica dedutiva e poder indutivo) e lembrei o papel essencial do líder (conduzir a comunidade ao bem-estar e ao desenvolvimento). Também conectei as duas coisas, lembrando que, ao aliar vontade com preparo pessoal, a pessoa pode transcender as expectativas. E o prêmio para essa transcendência é o direito de liderar, enquanto a resposta para a traição à expectativa é a punição. Na ocasião, dei ao presidente recém-eleito o benefício da dúvida, afinal “o Brasil elegeu Lula porque percebeu nele um conjunto de vontades: a vontade de liderar, a vontade de beneficiar os outros e a vontade de se superar”. Concluí dizendo que a biografia de Lula foi suficiente para levá-lo a ocupar a presidência, mas a posição que ele ocuparia na história só o tempo diria. E o tempo não se fez esperar. Deixou claro que a vontade, sem o preparo, não foi suficiente.
 
ANALOGIA INEVITÁVEL
 
Imagine uma empresa privada cujo CEO não tenha planejamento estratégico, se cerque de gente incompetente, que diz um monte de bobagens aos funcionários e que permite o desvio de dinheiro do caixa. Seria demitido, claro. Lula não foi contratado, e sim eleito. A contratação é uma decisão lógica; a eleição tem o fator emocional, pois o eleitor prefere ouvir o “discurso da esperança”, em vez de ler plano de governo. Em 2002, procurei o amparo de duas obras de Aristóteles: Ética a Nicômaco e Política. Agora me vem à mente A República, de Platão. Trata-se da visão utópica de uma sociedade em que tudo funciona graças à gestão perfeita dos filósofos. Platão exagerou numas coisas, mas acertou nesta: a importância do preparo dos homens públicos. Disse ele que “as cidades sofrerão enquanto os homens que delas cuidam não aliarem a sabedoria à liderança”. Para o filósofo, justiça nada mais é do que “atribuir a cada um o que lhe é devido”, o que equivale a praticar a meritocracia, o melhor dos sistemas, distribuindo prêmios ou castigos dentro do direito e da lógica no trato da coisa pública (res publica — república). Se valesse o pensamento platônico, ou se o Brasil fosse uma empresa, a demissão já teria acontecido.
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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