Wojtyla, o líder

A quantidade de peregrinos que velou, o número de autoridades políticas – algumas inimigas entre si – e a cobertura da mídia global, definem o falecido papa como um personagem histórico de magnitude incomparável. Apesar disso seu legado provoca discussões acaloradas em função de seu caráter contraditório. Se por um lado ele foi o papa da paz, dos direitos humanos e da celebração da vida, por outro colocou a igreja na contramão da modernidade, da ciência e da evolução dos costumes.
 
Mas isso parece totalmente irrelevante, pois sua figura está acima dessas discussões, como ficou provado pelas imagens da última semana. E assim é por dois motivos inquestionáveis: a firmeza de suas posições e seu carisma irresistível. Entretanto, não obstante o crescimento mundial da imagem do papa, a Igreja, ao contrário ficou menor. A Europa aumentou sua indiferença à religião e a América Latina, especialmente o Brasil, o maior país católico do mundo, promoveu uma grande migração da fé para igrejas portadoras de discursos mais palatáveis.
 
João Paulo II foi uma figura única, imponente por sua liturgia, gigante por sua personalidade, global pela mídia ou pelas viagens em que beijava solos de aeroportos e faces de fiéis de todas as cores. Então por que este homem singular não conseguiu fazer crescer a instituição que representava, apesar de tantos atributos?
 
Porque o carisma comove, mas não demove, a não ser que esteja acompanhado pela razão prática, aquela que atende aos desejos e às necessidades imediatas das pessoas. A liturgia abre a porta da esperança, mas quem a mantém aberta é a doutrina que ela simboliza. E esta depende de sinais claros apontando para o futuro que as pessoas sonham. E depende também do entendimento do mundo como ele é, e não como gostaríamos que fosse. Até para que possamos transformá-lo em um mundo melhor.
 
Nas empresas, o líder é o guardião da estratégia. Cabe a ele definir as metas e os rumos, e providenciar e manter os meios. Não é necessário, nem prudente, que ele faça isso sozinho, mas sua figura concentra essa responsabilidade, e isso é bom para o grupo, pois o ser humano necessita da segurança simbolizada.
 
Os líderes são os donos dos sonhos que viram realidades, e também são os que fazem os outros sonharem um sonho coletivo que cria a força, o poder de construção e de superação. É comum que a história das organizações seja contada a partir da história dos seus principais líderes. Podem ser seus fundadores, como Ford ou Disney, ou executivos que escreveram uma página importante, como Iacocca ou Welch. Mas há um perigo nisso, pois às vezes o líder é maior que a organização que ele criou ou que ele representa, e quando ele se vai, começa a faltar ar no ambiente. O primeiro império industrial brasileiro não sobreviveu à morte de Matarazzo. Já empresas como a Fiat do Giovanni Agnelli, a Ferrari do comendador Enzo, a TAM do comandante Rolim, a Globo do doutor Roberto passaram por solavancos graves e só se salvaram por programas intensivos de profissionalização, alguns começados por eles mesmos, sabiamente. Mas ainda há perguntas no ar. Por exemplo: como será o SBT sem o Sílvio? Isso para ficar com exemplo mais conhecidos.
 
A lógica diz que o líder máximo não deve estar acima de sua organização, e sim dentro dela, e que o bom líder não é aquele que produz seguidores e sim o que produz outros líderes. Faz sentido, considerando que os líderes são os provedores da energia psíquica que não pode faltar nunca, pois ela produz o comprometimento que gera resultado. Portanto, quanto mais, melhor.
 
A Igreja Católica está dividida entre criar um wojtylismo sem Wojtyla, ou recriar uma instituição que precisa de um líder, mas que é maior que ele. Guardadas as proporções, esse dilema está no coração de todas as empresas que cresceram rápido porque tiveram bons líderes, mas que pagam o preço de não conseguirem viver sem eles.
 
Texto publicado sob licença da revista Você SA, Editora Abril.
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